One Shot (Wontaek) – Better Than I Know Myself

Uma nova semana começava e logo pela manha Taekwoon se preparava para mais um dia no trabalho. Soltou um suspiro ao pensar nas infinitas reclamações de alunos e professores que receberia, como todos os outros dias. Era um trabalho cansativo, mas não era como se tivesse outra opção no momento. Sua vida estava estável e era isso que ele mais desejava agora. Mas aquilo não era algo que odiava, ele gostava de trabalhar como coordenador na universidade, só era extremamente desgastante.

Tentava arrumar seus cabelos de uma forma decente quando foi interrompido pelo som da campainha que soava pelo apartamento. Àquela hora da manha, a única pessoa que apareceria em sua casa era Wonshik, não era difícil adivinhar antes mesmo de chegar até a porta. Não podia deixar de ficar feliz ao receber o namorado, mas também não conseguia ficar em paz com o mesmo desde o último encontro com seus pais.

Namorava Wonshik há seis meses, mas há apenas um, levou o mais novo para conhecer sua família, ele insistira por eras para conhecê-los. Wonshik estava muito ansioso para conhecer o sobrinho de Taekwoon, Minyool, de quem ele tanto falava. Acabou se dando incrivelmente bem com o garoto quando o viu, mas o mesmo não aconteceu com os pais de Taekwoon.

Ele achou que estava tudo bem, até o último fim de semana, que eles o chamaram e disseram que não gostaram de seu namorado, até sugeriram que terminassem.

Ele nunca consideraria de verdade o término, mas a opinião de seus pais era muito importante, por isso não pôde evitar ficar um pouco distante do namorado nos últimos dias. Também não teve coragem de contar a ele o que ouvira, não queria ferir seus sentimentos, então achou melhor omitir essa conversa. Seria o plano perfeito se ele conseguisse agir normalmente.

A insistência de Wonshik em visitar sua casa mais vezes não ajudava em seu comportamento, o mais novo falara a semana toda que deveria ter ido com ele em sua última visita e que esperava ser convidado nas próximas.

Ao abrir a porta se deparou com o rosto sorridente do namorado, que logo se jogou sobre ele para um abraço, Taekwoon não pôde deixar de sorrir também ao abraçá-lo de volta.

– Senti saudades, amor – nunca se acostumaria a ser chamado assim, sempre achou esse tipo de tratamento muito brega, mas soava fofo ao ser pronunciado pelo mais novo.

– Nós nos vimos no sábado, Wonshik, há dois dias.

– Não posso sentir saudades assim mesmo? – ele fez um bico como se estivesse magoado, mas Taekwoon já o conhecia o suficiente para saber que ele só queria ser mais mimado, o que não conseguiria naquele dia.

– Pode sim – disse sem esperar uma resposta e foi até o sofá pegar sua bolsa para sair, precisava sair logo.

– Quer uma carona até o trabalho? – Wonshik questionou e Taekwoon balançou a cabeça em afirmação.

Os dois saíram do prédio e foram até a universidade. Wonshik tentou fazer perguntas ou puxar assunto durante todo o trajeto, mas fora respondido apenas com gestos ou monossílabos. Quando chegaram ao destino, Taekwoon começou a se mover para sair do carro até sentir uma mão em seu pulso o parando.

– Mereço ao menos um beijo de despedida? – ele sentiu uma pontada em seu peito ao ver mágoa nos olhos de Wonshik enquanto ele falava. Só queria pedir desculpas por o tratar assim durante toda a semana e dizer que o ama, mas as palavras pareciam desaparecer sempre que tentava. Então apenas se curvou e beijou seus lábios, num selar longo e suave – Você está estranho comigo, hyung, está tudo bem? – queria ser sincero mas não conseguiria agora, então apenas concordou com a cabeça novamente e murmurou um “tchau” que mais se assemelhava a um sussurro antes de sair do carro.

 

X

 

Em seu apartamento, a noite, Taekwoon apenas queria se deitar e dormir o mais rápido possível, mas não esperava encontrar Wonshik ali aguardando sua chegada.

Era comum para o mais velho encontrá-lo ali as vezes, já que ele tinha a chave, mas ele costumava sempre avisar que iria.

Ficaram sentados, cada um em um sofá da sala, completamente em silêncio. Enquanto Wonshik encarava Taekwoon e este encarava o chão.

– Se for falar algo, fale de uma vez – Taekwoon quebrou o silêncio sem desviar seu olhar.

– Por que você está agindo assim comigo? – Wonshik decidiu falar logo o que vinha o perturbando por um tempo, e que ensaiara milhares de vezes em sua mente.

– Assim como? – era claro que Taekwoon sabia como, mas não é como se planejasse admitir de primeira.

– Você sabe como, hyung, você está me tratando friamente e nós estamos distantes há uns dias, eu não sei o que aconteceu, eu fiz alguma coisa para te magoar? – esperou a resposta por alguns segundos e apenas recebeu um aceno negativo com a cabeça vindo do outro – Então por quê? Me diz, por favor, não consigo lidar com você me tratando assim, eu te amo.

– Você não fez nada, eu só… – não conseguiu continuar e olhou para o mais novo, que o encarava, esperando que continuasse – Me desculpe, eu não queria te tratar assim, mas você sabe como eu sou.

– Sei, e não é assim – Wonshik se levantou para sentar no outro sofá ao lado de seu namorado e segurou sua mão – Eu sei que aconteceu algo, pode me contar, você sabe que não há segredos entre nós.

– Eu não contei porque não queria te magoar – Taekwoon logo percebeu pelo olhar de Wonshik que ele não desistiria de saber, resolveu começar a contar – Se lembra que me pediu para ir até minha casa novamente? – o outro murmurou em afirmação como resposta – Então, não vou poder te levar, meus pais disseram que não vão mais te receber.

– O que? Mas por quê? Eles não gostaram de mim? – ele parecia chocado ao ouvir, tudo foi normal em sua visita, ele não sentira sinais de rejeição.

– Não, até me disseram que deveríamos terminar nosso relacionamento – Wonshik o olhou assustado dessa vez, Taekwoon não pôde deixar de rir um pouco da sua expressão desesperada – Não se preocupe, não estou pensando em acatar a sugestão – o mais novo suspirou aliviado.

– Mas não entendo os motivos deles para isso.

– Bom, eles disseram que é uma vergonha você não ter um emprego decente, que você tem muitas tatuagens e que seu cabelo é estranho, sua maquiagem também – Taekwoon falou aquilo num tom mais leve, dizer em voz alta o fez perceber que ele reagiu de forma exagerada à tudo aquilo. As reclamações de seus pais eram bem superficiais.

– Ei, meu emprego é decente, eu trabalho o dia todo – ele não parecia ofendido pelas outras coisas, ouvia elas constantemente, até de seus próprios pais.

– Tente explicar para eles que ser produtor e compositor é tão decente quanto ser um executivo ou outra coisa parecida.

– Posso tentar um dia se você quiser – disse suavemente se aproximando para colocar um braço por cima dos ombros do mais velho, já se sentindo mais confortável – Eu fiquei assustado, achei que você estava me traindo, ou que tinha se cansado de mim e nunca mais queria olhar na minha cara.

– Como você é exagerado, sabe que eu nunca faria isso – Taekwoon se aproximou o suficiente para colocar a mão no rosto de Wonshik, que o olhava fixamente nos olhos. Aqueles olhos brilhantes pelos quais se apaixonou, um olhar que só transmitia amor e carinho. Sorrindo, se aproximou um pouco mais e capturou seus lábios num beijo doce e repleto de sentimentos da parte de ambos – Eu te amo.

– Também te amo, hyung – Wonshik disse sorrindo – E prometo que vou tentar conquistar seus pais, não quero que brigue com eles por minha causa.

– Tenho certeza que se eles ignorarem seu cabelo estranho e te conhecerem de verdade vão te amar, assim como eu – o mais novo o olhava com curiosidade agora – O que foi?

– Você também não acha meu cabelo estranho, né? – Taekwoon riu com a pergunta do outro, e demorou a se acalmar para respondê-lo.

– Seu cabelo é lindo, você e o descolorante são almas gêmeas, tenho até ciúmes.

– Que bom, porque eu acho cada parte de você perfeita, amor – Taekwoon sentiu suas bochechas queimarem com aquelas palavras repentinas.

– Não precisa ser tão meloso, Wonshik.

– Eu sei que no fundo você adora – o mais novo riu e Taekwoon apenas continuou o olhando,tentando esconder que sim, adorava quando ele era meloso.

Queria ser capaz de dizer palavras como aquelas também, mas nunca foi bom com as palavras, ainda menos com as que expressam sentimentos, então preferia mostrar o que sentia com ações. Como beijos e abraços, todo tipo de carícia, assim como as que dividiram pelo resto daquela noite. E esperavam continuar dividindo por muito tempo.

Apesar dos problemas que poderiam ter no futuro, o amor deles era intenso, e mais importante que todos os obstáculos.

One Shot – Rumors

Equações matemáticas pareciam infinitas, ainda mais quando você não tinha ideia do que estava fazendo. Hyunseong não sabia se preferia ficar no conforto do aquecedor instalado na sala de aula, fingindo resolver aquelas coisas, ou ter sua liberdade anexada ao frio causado pela neve que caia lá fora. Talvez nenhuma das duas opções fosse muito feliz, mas ele teria que sair de qualquer jeito assim que o sinal tocasse, o que não demorou a acontecer.

Arrumou apressadamente suas coisas na mochila e saiu com pressa para fora dos portões do colégio, não que ele tivesse qualquer coisa importante para fazer em casa, ele só queria jogar vídeo game e dormir no conforto do seu quarto.

Estava andando rápido, ou praticamente correndo, quando sentiu uma falta de peso repentina em suas costas, aquilo já havia acontecido antes, era sua mochila que ele esquecera de fechar e todos os seus materiais agora provavelmente estavam derretendo junto com a neve no chão. Hyunseong suspirou forte e se virou para recolher as coisas molhadas e seguir seu caminho. Mas ao invés de encontrar seu caderno destruído, encontrou um estudante sorrindo para ele com suas coisas nas mãos.

– Espero que não se importe, só vi suas coisas caindo e resolvi pegar antes que ficassem muito molhadas, acho que o estrago foi pouco – Hyunseong ficou olhando para ele por uns segundos, tentando lembrar a quem pertencia aquele lindo sorriso.

Imaginou que o garoto já se sentia desconfortável até a hora que ele se lembrou que era o capitão do time de basquete da escola, Lee Jeongmin.

– Obrigado, não imaginei que alguém aqui fosse perder tempo me ajudando, muito obrigado mesmo – sorriu e pegou suas coisas das mãos de Jeongmin, colocando-as de volta em sua mochila e agora se certificando que ela estava devidamente fechada.

– Não foi nada – Jeongmin o olhou, depois olhou para o chão, Hyunseong olhava para qualquer direção e quando resolveu apenas se despedir e ir para a casa foi interrompido – Então – ele realmente não imaginava que Jeongmin tentaria puxar algum assunto – Você é o presidente do grêmio, Hyunseong, certo?

– Sim, e você é Jeongmin, do time de basquete?

– Isso, parece que somos famosos – riu, e Hyunseong se viu rindo junto sem motivo.

– Somos celebridades do ensino médio com certeza – Hyunseong nunca sabia muito bem o que dizer, na frente de garotos bonitos sabia menos ainda o que estava fazendo.

– Você está ocupado agora? – Jeongmin perguntou e Hyunseong negou com a cabeça – Nós podíamos tomar um café ou qualquer coisa quente, sabe, está frio e não estamos fazendo nada.

Ele estava ouvindo certo e estava sendo convidado pra um encontro? Podia ser apenas uma saída inocente, mas ao ouvir aquilo, se lembrou de ter escutado alguns rumores sobre Jeongmin já ter transado com todos os membros do seu time, e membros de outros times, e também caras que não tinham nenhum time, e ainda algumas garotas. Tendo isso em mente pensou se deveria ou não aceitar o encontro e provavelmente virar mais um nome na lista.

Pensando bem, ele ainda era um adolescente, não era como se estivesse procurando o amor da sua vida ou nada assim, nem sabia se queria um relacionamento sério, não tinha nenhum problema em sair com um cara galinha – e muito bonito – que ele nunca imaginaria em sua vida que o convidaria para sair. Era uma oportunidade grande demais pra desperdiçar por bobagens.

– Claro, algum lugar que você queira ir? – ele sorriu novamente, seu sorriso era lindo, e pelo jeito ele amava exibi-lo para o mundo.

– Tem um lugar aqui perto que eu adoro, não sei se você conhece.

– Provavelmente não conheço, não costumo sair muito – Hyunseong poderia falar que não saia nunca, mas eufemismo sempre ajudava.

– Agora pode sair comigo – Hyunseong o olhou desconfiado, Jeongmin o conhecia há menos de 30 minutos e já estava o convidando para o segundo encontro – Se você quiser, é claro.

– Vou querer sempre que me convidar – já que Jeongmin era ousado, achou que poderia ser também.

Chegando na cafeteria, fizeram seus pedidos e ficaram até tarde conversando. Hyunseong aprendera que Jeongmin era legal e engraçado, diferente de sua percepção de garotos que participavam de times “populares” da escola, pensava que todos eram idiotas que não sabiam conversar sobre algo que não fosse bolas. Mas Jeongmin o surpreendeu, o que rendeu em um segundo encontro marcado para sexta feira a noite. Dessa vez iriam para uma casa noturna, já que Hyunseong comentou que nunca entrara em uma e Jeongmin se ofereceu para ser seu guia na noite.

X

A escola já parecia ruim o suficiente para Hyunseong sem pessoas o olhando e dando risadinhas quando ele passava, agora lhe parecia terrível. Não entendeu o motivo para qualquer coisa o envolvendo ter circulado pelos corredores, ele provavelmente saberia se sim. Resolveu tentar ignorar e entrar na aula de biologia, mas alguém o puxou pelo pulso antes que o fizesse. Só quando pararam do outro lado do corredor viu que era Jiwon.

– Posso saber que história é essa, sua com o garoto do basquete? – ela disse em um tom acusatório, com os braços cruzados.

– Do que você está falando, Jiwon?

– Ouvi por ai que vocês foram ontem depois das aulas para as arquibancadas e transaram lá mesmo – por que ela ouviria um absurdo desses de uma hora para outra? – Você devia ter me contado, sou sua melhor amiga ou não?

– Eu não contei porque isso não aconteceu, onde você ouviu isso?

– Todo mundo está comentando que você é o novo nome da sex list do garoto.

– Isso é loucura, nós não fizemos nada disso, alguém resolveu espalhar esses boatos sem motivo.

– Me jura que isso é mentira? – Hyunseong assentiu – Mas alguma coisa aconteceu para falarem isso.

– Ontem quando as aulas acabaram ele me parou no portão e me convidou para tomar um café, só isso.

– Não rolou nem um beijo?

– Nada.

– Você é muito lerdo, Hyunseong – Jiwon lhe deu um tapa no braço e ele riu – É melhor descobrir se foi ele que espalhou isso, porque se foi, é melhor ele não chegar mais perto de você.

– Não se preocupe, mãe, vou falar com ele quando puder.

– Ok, agora entre nessa sala antes que se atrase, filho – os dois riram e se despediram.

Hyunseong não podia acreditar que Jeongmin espalharia uma coisa daquelas. Ele tinha sido tão legal no dia anterior. Talvez a primeira impressão foi a errada. Hyunseong já se arrependia de ter aceitado o convite, agora ficaria conhecido como mais um na lista de um galinha pelo resto do ensino médio.

Logo que o primeiro tempo acabou, Hyunseong foi a procura de Jeongmin, sabia que os clubes se reuniam nesse horário, então ele foi para a quadra. Antes que pudesse trilhar metade do caminho foi parado por alguém gritando seu nome. Se virou para trás e viu Jeongmin correndo em sua direção, parou em sua frente, respirando forte, provavelmente por ter corrido muito. Hyunseong pensou que um atleta teria uma preparação física melhor que a que estava vendo agora.

– Não fui eu que espalhei esses boatos pela escola, eu juro, você deve estar me odiando agora, mas não fui eu, acredite – ele falava rápido ainda sem ar. Pelo tom de sua voz, Hyunseong quase acreditou. Respirou fundo antes de responder.

– Por que eu deveria acreditar? – estava desconfiado, claro que estava, Jeongmin não podia culpa-lo.

– Porque tenho quase certeza de quem fez isso – Hyunseong gesticulou para que continuasse – Tem um garoto do terceiro ano, Donghyun, que ficou estressado quando eu o rejeitei há alguns meses e desde então tenta estragar qualquer relacionamento que eu tenha, até as amizades. Ele espalha aos quatros ventos que eu transo com a escola inteira.

– E não transa? – Hyunseong não conseguiu resistir à curiosidade quando o assunto foi mencionado.

– Claro que não! Na verdade eu sou virgem – Jeongmin olhava para o chão, Hyunseong o encarou surpreso, não esperava ouvir isso. Jeongmin voltou seu olhar para Hyunseong – Não me olhe como se eu estivesse dizendo um absurdo, é verdade.

– Eu acredito, só fiquei um pouco surpreso, sua fama não é exatamente de um ser puritano.

– Sei que não é, eu fico sim com várias pessoas, mas nunca chego tão longe.

– Qual seu objetivo em ficar com elas se não é para ir para a cama? – Hyunseong nunca pensou que falaria de sexo abertamente no meio do corredor com um cara que conhecia há dois dias.

– Só quero conhecer alguém legal, quando vejo que a pessoa não é, desisto, só isso – Jeongmin parecia sincero enquanto falava – Espero que isso não te faça desistir do nosso segundo encontro.

– Acho que posso pensar no seu caso, Lee Jeongmin.

X

Sexta-feira, Hyunseong ainda não havia dito se perdoaria Jeongmin a tempo de ainda querer sair com ele. Já estava ficando um pouco desesperado, passou a semana toda atrás de Hyunseong, se sentando com ele no almoço e o levando até perto de casa depois que saiam. Jeongmin começava a pensar se todo aquele esforço valia a pena se ele podia, simplesmente, seguir em frente e sair com outra pessoa, depois de uma semana ele não ganhara nem um beijo do mais velho. Mas algo em Hyunseong o atraia tanto que o fazia querer descobrir se aquilo daria certo ou não, talvez Jeongmin estivesse descobrindo uma leve queda por desafios.

Sentiu seu celular vibrar no bolso da jaqueta, imediatamente o pegou para ver do que se tratava, não é como se fosse prestar atenção na aula com ou sem celular. Viu uma mensagem de Hyunseong.

Ainda quer me levar àquela boate hoje a noite? ㅋㅋㅋㅋ

Sorriu ao ler, ainda tinha chances, afinal.

Claro, não posso te deixar em casa numa sexta-feira a noite ㅋㅋㅋ posso passar na sua casa as oito?

A resposta veio rápido

  Pode sim, vou esperar ♡

Seu sorriso aumentou e ele respondeu com outro coração. Demorou cerca de 10 segundos para que ele se sentisse um idiota por sentir seu coração bater mais rápido por um emoticon. Resolveu guardar o celular, deitar em seu caderno e dormir até o final da aula.

X

Hyunseong não tinha ideia de como se vestir para ir em um clube noturno, tentou seguir alguns modelos que havia visto em filmes, mas não é como se ele tivesse roupas bonitas como as de lá, então colocou uma regata branca, uma calça preta e um tênis também branco- a regata era uma dica de Jiwon, que lhe disse para “Mostrar os músculos” – além de alguns acessórios que encontrou em sua estante.

Ouviu a campainha enquanto terminava de passar seu lápis de olho, tentou não se apressar para não borrar, sua mãe atenderia a porta de qualquer jeito.

Desceu e como previsto, sua mãe abriu a porta e agora conversava animadamente com Jeongmin.

– Hyunseongie, por que não me contou que seu amigo novo era tão bonito e simpático? – Jeongmin riu e Hyunseong apenas revirou os olhos.

– Não sabia que tinha que qualificar meus amigos assim, mãe.

– Tem sim, agora se comportem nesse tal clube, ok – deu um beijo na bochecha de Hyunseong.

– Vou tomar conta dele, senhora, não se preocupe – Jeongmin sorria para ela como se a conhecesse há eras.

– Não vou me preocupar – ela sorriu também – E traga Jeongmin aqui mais vezes, Hyunseongie – este apenas murmurou um sim antes de sair e fechar a porta atrás de si.

– Ouviu sua mãe, Hyunseongie, me traga em sua casa mais vezes – Jeongmin sussurrou em seu ouvido. Hyunseong se arrepiou mas logo teve o reflexo de bater no ombro de Jeongmin com seu próprio, ouvindo uma risada do outro – Você fica bonito sem uniforme.

Hyunseong sentiu seu rosto esquentar ouvindo aquilo, tentou olhar para Jeongmin, mas quando viu seus olhos virados para ele, desviou o rosto para baixo.

– Obrigado, você também – não pode deixar de gaguejar um pouco, afinal, já tinha reparado nas calças pretas e justas marcando suas coxas e a camiseta larga que reforçava o jeito rebelde que ele sempre carregava, mas até aquele momento, tinha escolhido não comentar.

Durante o caminho e já dentro do clube, conversaram sobre coisas aleatórias e riram muito. Encontraram um sofá disponível e ficaram por lá mesmo, Jeongmin disse que já estava muito velho para ficar em pé, para Hyunseong isso tinha outro nome, sedentarismo, mas concordou em se sentar mesmo assim. Ele estava olhando para a pista de dança, quando sentiu Jeongmin cutucar seu ombro, se virou para ele e percebeu que estavam muito próximos um do outro. Podia sentir a respiração de Jeongmin enquanto a sua própria aumentava o ritmo. Não teve muito tempo pra reparar em mais detalhes, Jeongmin o puxou para si conectando seus lábios. Hyunseong logo correspondeu, já queria fazer isso há algum tempo, na verdade, não sabia porque ainda não havia feito, ele era um pouco lerdo as vezes. Quando se separaram, Jeongmin o olhou sorrindo, o que o fez sorrir também, mas logo deixou seus olhos para dizer em seu ouvido.

– Espero que você aguente mais alguns rumores quando entrarmos de mãos dadas nos corredores.

– Podemos fazer com que o que eles dizem seja verdade.

Ficou envergonhado com o que disse mas viu a reação de Jeongmin, que sorria enquanto entrelaçava os dedos com os dele e logo o puxou para outro beijo, seus pensamentos tirados da vergonha em menos de dois segundos.

Teria de ignorar mais boatos por muito tempo.

 

One Shot – Broken

Estava andando nos corredores lotados após uma cansativa aula de matemática e indo para outra cansativa aula de biologia. Mas não podia entrar na sala sem ver Hyunseong, é claro. Ele dizia não estar interessado em mim, mas eu sei que ele estava, qualquer pessoa desse mundo daria a alma para ficar comigo, era impossível que o único que eu quisesse ficar fosse diferente.

Fiz meu caminho até o armário 301, trajeto qual já sabia de cor. Ao chegar lá não acreditei no que vi. Hyunseong estava beijando alguma das garotas aleatórias da escola. Eu não sabia quem era, mas sabia que ela não ia beijar meu homem desse jeito.

Cheguei em frente ao armário e fiz questão de separa-los educadamente com as mãos.

– Com licença, querida. Gostaria de saber por que você está beijando meu namorado.

– Seu o que? – ela me olhava com aquela cara de piranha cínica, meu deus, como mulheres são irritantes.

– Não liga pra ele, Seolhyun, ele é só meu amigo.

– Amigo? Achei que já tivéssemos passado pela fase de ter vergonha do nosso relacionamento, hyung – então lhe dei um selinho que ele já estava acostumado então não reagiria.

– Então você é gay e só estava brincando comigo, Hyunseong? – a garota saiu de perto quase chorando. Por minha culpa, e eu não poderia me sentir melhor com isso.

– Finalmente ela foi embora.
– Jeongmin, você acabou de estragar o encontro que eu estava planejando há semanas.

– Estou apenas te poupando de experiências desagradáveis, hyung – cheguei perto dele, mas ele me empurrou antes de qualquer outro movimento.

– Eu já te disse mil vezes que não sou gay e que não gosto de você.

– E eu já te disse mil vezes que meu gaydar não falha.

– Sinto dizer que seu gaydar está com defeito – ele começou a andar, mas o puxei pelo pulso antes que pudesse dar mais dois passos.

– Então por que depois de todo esse tempo ainda somos melhores amigos?

– Porque eu gosto de você como amigo e nada mais – ele soltou seu pulso da minha mão e saiu andando em direção a sua próxima aula.

Por mais que já tivesse sido rejeitado várias vezes, sempre doía. Sou apaixonado por Hyunseong desde a sétima série quando nos conhecemos. Somos melhores amigos desde então, ao meu ver, já agimos praticamente como um casal, mas ao dele não. Ele sempre tenta arrumar alguma garota, como essa de hoje, não foi a primeira e não será a última. Fico confuso pensando se ele não aceita que me ama, ou se eu não aceito que estou sendo um otário por anos. Por mais que eu me magoe e seja rejeitado, algo me diz que não devo desistir dele. Desde que percebi meus sentimentos por ele, não consigo parar de pensar nisso. E em alguns momentos, ficamos tão próximos que me esqueço de todos os episódios da série “Somos só amigos” e acabo dizendo milhões e milhões de vezes as palavras eu te amo.

X
– Por que ele não gosta de mim, Minwoo? Você acha que não sou bonito o suficiente? – estávamos sentados no sofá da minha casa com um balde cheio de bolachas e jogando xbox.

– Achei que tivesse me convidado para jogar, não para ouvir sua baboseira gay – Minwoo só aceitava me visitar para jogar em meu xbox, já que não tinha um. Era amigo do videogame, não meu amigo.

– Meu deus, não posso falar nada em minha própria casa.

– Olha Jeongmin, já estou cansado de você chorando por isso o tempo todo, fale com ele seriamente e dê um ultimato para ele resolver seja lá o que ele esteja resolvendo, depois você vai ter sua resposta definitiva.

– Nossa, obrigada Minwoo, nunca pensei que realmente escutasse o que eu falo.

– Não posso bloquear meus ouvidos, infelizmente. Podemos voltar para o jogo? – concordei com a cabeça e passamos o resto da tarde jogando enquanto eu pensava no que fazer para resolver essa história.

X

Era sábado, e resolvi que seria o dia do fim da minha agonia. Parei na frente da casa de Hyunseong e toquei a campainha. A Sra. Shim, sempre sorridente, abriu a porta para mim e me informou que Hyunseong estava no quarto, como sempre.

Subi as escadas e quando cheguei em frente a porta parei e respirei fundo antes de abri-la. Assim que entrei, Hyunseong notou a minha presença e sorriu para mim. Por que ele fazia isso?

– Jeongmin, o que faz aqui? Se estiver atrás da cueca de arco íris de novo, ela não está comigo.

– Não, não vim pela cueca, só preciso falar com você.

– Sobre?

– Sobre tudo, tudo que envolve minha mente nos últimos quatro anos.

– Você quer dizer… aquilo de gostar de mim.

– Exatamente.

– Jeongmin, já te disse que não… – o interrompi antes da conclusão da frase.

– Não, pare de mentir para mim, por favor, preciso de uma resposta definitiva, Hyunseong, não aguento mais viver nessa dúvida. Como se fosse um idiota correndo atrás de você o tempo todo enquanto cada vez que você me afasta, me puxa para ainda mais perto depois. Preciso saber se devo continuar com meus sentimentos idiotas ou se devo sofrer ainda mais para afasta-los – não havia percebido, mas quando acabei de falar pude sentir as lágrimas descerem pelo meu rosto. Tentei esconder meus olhos, mas já era tarde para isso.

– Jeongmin, me desculpe. Não chore, por favor.

– Essa não é a primeira vez que choro por causa disso.

– Não imaginava que isso te magoava assim, você age como se nada pudesse te atingir.

– Mas pode – não conseguia pronuncia direito em meio ao choro – Só peço que seja sincero comigo sobre isso, de verdade.

– Eu não sei.

– Não sabe o que?

– Se gosto mesmo de você.

– Você sempre me disse que não gostava, por que nunca me disse isso?

– Também não sei, medo talvez, de como as coisas seriam se namorássemos. Medo de descobrir que seu gaydar está certo, de te beijar e ver que tudo o que eu tentei acreditar não era verdade. Todas as vezes que saia com uma garota só conseguia imaginar o momento em que você viria nos separar.

– Nunca pensei que se sentia assim. Mas eu não aguento mais essa dúvida, eu te amo tanto, Hyunseong.

– Eu… eu também te amo.

Ele disse que me ama? Era inacreditável ouvir aquilo depois de tantas frases contrárias.

Ao olhar em seus olhos percebi que também começava a chorar. Então ele chegou mais perto, tanto que eu conseguia sentir sua respiração em meus lábios enquanto ele acariciava meu rosto. Até que finalmente selou seus lábios nos meus, pela primeira vez por vontade própria. E pela primeira vez nos entregamos aos nossos sentimentos sem pensar em mais nada. Arrepios percorriam todo meu corpo e eu me sentia literalmente nas nuvens, como se nada pudesse me alcançar. Nunca imaginei que só um beijo pudesse causar essas sensações, por mais que já o tenha imaginado em inúmeros sonhos.

Nos separamos e nos olhamos, ele ainda parecia confuso, como se não conseguisse processar a ordem dos acontecimentos.

– Não devia ter feito isso, Jeongmin, me desculpe, eu me descontrolei e… – ele parou de falar abruptamente quando beijei sua bochecha.

– Tudo bem, eu já tenho minha resposta – sai do seu quarto sem esperar que ele dissesse algo, e depois de me despedir da Sra. Shim, fui andando até minha casa.

Minha resposta era: Sim, eu devia continuar lutando por esse amor. Ele estava confuso, e não sabia o que fazer, mas me amava. Ainda teria que ouvir muitos nãos até finalmente ter meu tão desejado amor verdadeiro, mas valia a pena. Não dizem que o que vem fácil, vai fácil? Então estava certo que para algo eterno era preciso aguentar mais algum tempo. Muito ou pouco, não importa, a única coisa que importa é que vou poder guardar esse sentimento dentro de mim para sempre.

One Shot – Say Something

Hyunseong estava em seu quarto se arrumando. Se preparando para uma nova chance. Não que ele tivesse certeza que ia funcionar mas, com certeza a tentativa valia. Ele conheceu esse colega de faculdade há algumas semanas, Jinyoung, que parecia ser um cara legal e talvez pudesse tirar essa paixão unilateral estúpida que a mente de Hyunseong insistia em manter. Era difícil esquecer uma pessoa que ele via todos os dias, o tempo todo.

Ele mal sabia como essa paixão por seu colega de quarto começou, apenas era impossível evitar. Jeongmin tinha algum tipo de charme ou qualquer outra coisa, que conseguiu conquistar Hyunseong antes mesmo que ele pudesse pensar sobre o assunto. Que pudesse avaliar o quão impossível seria carregar aquele sentimento, já que Jeongmin estava sempre com uma garota diferente dentro daquele apartamento. Quando acontecia, Hyunseong apenas tentava fingir indiferença até se trancar o seu quarto e ficar por lá até ouvir alguém saindo. Até o dia em que ele resolveu dizer.
X
– Me desculpe hyung, eu não sinto o mesmo – Jeongmin dizia calmamente, tentando ao máximo amenizar palavras que pareciam cruéis de qualquer jeito.

– Eu sei que não, eu só… – ‘Eu só o que? Nem sei porque fiz isso’ pensou Hyunseong, ele sabia que seu amigo nunca corresponderia, achava até que mesmo que Jeongmin fosse gay ele não teria chance, por que ele ainda perdia seu tempo com isso? – Não aguentava mais guardar – ele realmente estava sufocado, mas dizer só serviu pra piorar.

– Tudo bem, eu entendo, só espero que isso não atrapalhe nossa amizade – Jeongmin sorriu, e Hyunseong não sabia se também sorria por ele ainda querer ser seu amigo, ou se chorava porque nunca teria o garoto mais perfeito que ele já havia visto.

– Claro que não, se estiver tudo bem para você – ele escolheu a primeira opção, sorrir de volta. Não ia adiantar se lamentar de qualquer maneira.

– Ótimo, amigos então – com isso Jeongmin se levantou e foi para seu quarto, deixando Hyunseong ali sentado, sem reação.
X
Seis meses depois de ser rejeitado ele ainda não tinha feito nada a respeito. Só ficava próximo de Jeongmin, como sempre, e morria de raiva quando ele resolvia o trocar pela garota aleatória da semana.

Isso estava para mudar. Dando os últimos retoques em seu lápis de olho, Hyunseong terminou de se arrumar e se olhou no espelho para ver se estava realmente pronto. Quando confirmou, pegou sua carteira e saiu do quarto em direção ao café do campus.

Passou pela sala e Jeongmin estava assistindo algum DVD de uma banda que Hyunseong não conhecia sem parecer prestar muita atenção ao seu redor, por isso sua voz o pegou de surpresa.

– Onde está indo? – ele perguntou sem tirar os olhos da TV.

– Vou sair – Jeongmin o olhou ainda sem aparentar muito interesse.

– Isso eu percebi, mas vai aonde?

– Ali no café com o Jinyoung.

– Vocês estão indo como se fosse..?

– Sim, um encontro. Preciso ir agora, Jeongmin, até mais.

– Tchau.
X
Quando Jeongmin ouviu que Hyunseong ia para um encontro se sentiu estranho. Com um pouco de ciúmes, talvez. Não que ele gostasse de Hyunseong desse jeito, é só que ele pensou que por causa da paixão de seu amigo, ele fosse sempre receber toda a atenção dele. Mas parece que isso estava prestes a mudar. Jeongmin soltou um longo suspiro pensando em porque se importava com isso, não tinha sentido. ‘Ele não gosta mais de mim? Será que ele apenas desistiu ou encontrou alguém melhor?’ era o que se passava em sua cabeça ‘Não, é impossível ele ter achado alguém melhor’ ainda sem total confiança nisso resolveu se arrumar e ver quem era o tal garoto.

Assim que chegou ao café que sabia que era o preferido de Hyunseong por ter ido ali várias vezes com o mesmo, logo o avistou em uma mesa perto da janela, o reconheceu mesmo de costas. ‘É a mesma mesa que nós sempre nos sentamos’ a raiva apenas aumentava, Jeongmin sabia que não tinha o direito de sentir nada em relação a isso, mas também não havia nada que ele podia fazer.

Via de frente o tal Jinyoung, ele usava um boné preto virado para trás e uma blusa larga e azul. ‘Eu sou muito mais bonito que ele, com certeza’ Jeongmin sorriu ao pensar, mas seu sorriso desapareceu quando viu o garoto entrelaçando seus dedos com os de Hyunseong naturalmente ‘Não posso mais assistir isso’ então se levantou em direção á mesa.
X
Hyunseong estava se divertindo com Jinyoung, ele era engraçado, e o tratava muito bem. Parecia mesmo se interessar em tudo que ele falava, por mais que Hyunseong estivesse falando pouco para evitar falar alguma besteira,  o que ele sabia que iria. Ainda era diferente do que ele sentia quando estava com Jeongmin, muito diferente. Com Jeongmin ele podia falar de tudo, se ele falasse algo idiota o mais novo iria apenas rir e falar algo idiota também, e os dois passariam horas rindo daquilo. Seu relacionamento com Jeongmin era diferente de todas as maneiras, talvez esse seja um dos motivos de sempre querer estar com ele.

Mas ele estava ali para esquecer, por que esse tipo de bobagem não saia de sua cabeça nem quando ele estava em um encontro com outro garoto?

Seus pensamentos foram interrompidos quando ele percebeu que Jinyoung pegou em sua mão enquanto sorria. Hyunseong hesitou um pouco, mas acabou também sorrindo. Afinal, se era para tentar, ele ia realmente tentar. De repente ouviu alguém puxar a cadeira que estava do seu lado e quando olhou e viu quem era, num susto soltou a mão de Jinyoung.

– Jeongmin – ele esperou Jeongmin dizer algo, mas só conseguiu ver seu café agora sendo tomado por ele – O que está fazendo aqui?

– Vim tomar café? – ele respondeu com aquele sorriso sarcástico que Hyunseong já conhecia muito bem.

– Então você é o Jeongmin? Ouvi falar muito de você – Jinyoung, quem Hyunseong tinha esquecido que estava ali por um segundo, sorriu e estendeu a mão.

– Ouviu? Pena que não posso dizer o mesmo – Jeongmin estendeu a mão de volta parecendo amigável mas, Hyunseong percebeu que ele estava um pouco irritado, ele só não sabia o porquê – Não queria interromper o encontro, mas, hyung, nós temos um trabalho para entregar amanhã. Precisamos ir, até mais Jinyoung – e com isso Jeongmin pegou Hyunseong pelo pulso e, praticamente, o arrastou para fora do café.

Quando estavam do lado de fora, Hyunseong se soltou, muito em choque para ter feito isso antes.

– O que foi isso de trabalho Jeongmin? Não tem nenhum trabalho. – eles nem faziam o mesmo curso, a mentira certamente poderia ter sido melhor.

– Eu sei, só queria te tirar de lá – ele disse tranquilamente tomando o último gole do café de Hyunseong.

– E por quê?

– Porque não entendi essa história de encontro, achei que você gostasse de mim.

– E eu achei que você não gostasse de mim.

– Não gosto.

– Por que está aqui então?

– Não sei.
X
Algumas semanas se passaram depois da tentativa falha de encontro de Hyunseong. Ele sentia que depois daquilo ele e Jeongmin estavam mais próximos, ou talvez fosse só sua imaginação; a segunda alternativa parecia mais óbvia.

Hyunseong estava sentado no sofá com o celular na mão jogando algum desses jogos bobos apenas para passar o tempo quando sentiu Jeongmin sentar ao seu lado no sofá e apoiar a cabeça em seu ombro. Hyunseong sorriu. Eles ficaram nessa posição por um bom tempo, o silêncio parecia confortável, mas foi quebrado.

– Hyung, como você descobriu que era gay? – Hyunseong arqueou a sobrancelha tirando os olhos do celular e fitando Jeongmin, que ainda estava deitado em seu ombro, avaliando a parede vazia a sua frente.

– Não sei, é tudo muito confuso, muitas coisas passam pela cabeça antes de se ter realmente certeza. É muito, muito confuso – ele ainda não sabia o motivo da pergunta mas respondeu mesmo assim.

– E como descobriu que gostava de mim?

– Acho que eu já gostava antes de descobrir, um dia só acordei e me dei conta – aquelas perguntas tão diretas fizeram Hyunseong ficar um pouco vermelho ao responder – Mas por que está perguntando isso, Jeongminnie?

– Nada, por nada…

One Shot – Innocent

Todos saíram de casa deixando Hyunseong sozinho na sala assistindo TV, quando percebeu que estava sozinho, foi direto ao quarto de Jeongmin, sabia que ele estaria lá e esperava aproveitar o tempo que tinham sozinhos.

Quando abriu a porta do quarto escutou barulhos estranhos. Jeongmin estava sentado de costas para a porta, e em seu notebook podia se ver cenas nada ortodoxas de dois garotos nus provavelmente transando. Hyunseong não teve tempo de confirmar já que fechou os olhos rapidamente. Jeongmin logo percebeu a presença do mais velho e se virou apenas para o ver com os olhos cobertos. Riu e fechou seu computador.

– Que foi, hyung? Parece que nunca viu um pornô antes – se levantou e foi até onde Hyunseong estava parado, ainda com as mãos tampando os olhos. Perto o suficiente dele, tirou as mãos dele do rosto com suas próprias.

– Mas… eu… nunca vi – Hyunseong estava vermelho e não conseguia olhar Jeongmin nos olhos.

– Sério? Nem uma cena?

– Nada.

– Você é tão inocente, Hyunseong – Jeongmin ria enquanto abraçava Hyunseong – Tenho umas coisas para fazer, passamos um tempo juntos depois, ok? – deu um beijo leve nos lábios do outro e saiu do quarto.

Hyunseong ficou ali pensando no que Jeongmin havia dito e decidiu provar a ele que não era tão inocente quanto o outro pensava ser. Talvez ser inocente fosse um elogio se não viesse de seu amigo colorido, ele devia pensar de outro jeito depois de tudo que já fizeram juntos. Agora era uma questão de honra desvalidar esse adjetivo dado a ele.
X
Esperou a madrugada cair e todos os moradores da casa dormirem para dar inicio ao seu plano. Tudo estava escuro, mas Hyunseong conhecia aquele lugar perfeitamente, conseguia o ver como se estivesse claro, se dirigiu ao quarto de Jeongmin; tentando ser o mais silencioso possível, o que era uma tarefa complicada.

Entrou no quarto e foi até a cama onde Jeongmin dormia, o cômodo era iluminado apenas por uma pequena lâmpada em forma de estrela, já que Minwoo, que também dormia ali, tinha medo de escuro. Hyunseong deveria agradecer Minwoo por essa fobia depois, já que por causa da lâmpada, ele conseguia ver o rosto perfeito de Jeongmin enquanto dormia. Ele era sempre maravilhoso, Hyunseong achava, mesmo sem maquiagem e com os cabelos bagunçados, era como um príncipe.

Não demorou para que Hyunseong começasse seu plano. Selou seus lábios aos dele, começando um beijo até profundo demais para ser dado em alguém desacordado. Mas Jeongmin logo começou a corresponder, mesmo sem abrir os olhos, era como se ainda estivesse dormindo e sonhando. Separando-se do beijo, Jeongmin abriu os olhos, olhou para Hyunseong e sorriu, este sorrindo rapidamente de volta. O sorriso de Jeongmin se apagou quando ele se lembrou que haviam mais duas pessoas no quarto, que podiam acordar a qualquer momento. Antes que pudesse dizer algo, sentiu sua boca já ocupada respondendo à outro beijo que Hyunseong lhe dera, um beijo mais agressivo que o último. Jeongmin não sabia direito o que estava acontecendo, mas estava gostando, até demais.

– Hyung, temos que parar, estou começando a ficar excitado – disse após se separar de Hyunseong, que apenas chegou perto de seu ouvido esquerdo e sussurrou.

– Esse é exatamente o objetivo – quando ele se afastou, Jeongmin pôde ver um sorriso malicioso em seu rosto, expressão que nunca tinha visto antes naquele rosto.

Hyunseong entrelaçou sua mão com a do mais novo para que ele o acompanhasse para fora da cama. Os dois andaram pouco até o cômodo cheio de roupas, ainda dentro do quarto. Por reflexo, Jeongmin fechou a porta quando entrou, milissegundos antes de ser, praticamente, jogado na parede e beijado mais uma vez. Para uma sessão de pegação de madrugada aquilo parecia demais, eles nunca passaram de alguns beijos quando alguém estava perto, mesmo que dormindo, mas parece que Hyunseong queria quebrar esse tabu.

– No closet? Nós não podemos fazer isso no… – Jeongmin foi cortado por outro beijo, esse mais rápido, fora apenas para interrompe-lo.

– Cale a boca, Jeongmin, eu mando aqui hoje – Hyunseong disse com um tom de voz que não era o doce e melódico de sempre. Soava áspero e incrivelmente sexy. Jeongmin não imaginava que um dia ouviria Hyunseong o mandar calar a boca, e muito menos que se sentiria intensamente excitado por isso. Decidiu parar de se questionar e aproveitar a oportunidade. Por mais que estivessem nessa amizade colorida, não faziam sexo muitas vezes, sempre impedidos pela presença de terceiros. Dessa vez, Jeongmin que puxou Hyunseong para outro beijo, era como se o outro estivesse desesperado para ficar mais perto dele que a física permitia, e esse comportamento, apesar de estranho, era perfeito.

Tiraram rapidamente as roupas que cobriam a parte inferior de seus corpos. Achavam, por alguma razão, que se estivessem um pouco vestidos, poderiam dar alguma explicação caso fossem pegos. O que Jeongmin pensava ser bem provável na atual situação, mas o corpo de Hyunseong lhe prensando na parede não o deixava pensar racionalmente. Só conseguia ter aquilo na mente, assim como o mais velho, que já normalmente não prestava atenção em nada ao seu redor quando Jeongmin estava por perto, com ele tão próximo e respirando pesadamente daquele jeito era impossível se focar em algo mais.
X
Se deitaram no chão após colocarem todas as peças de roupa de volta, não era prudente esperar demais para isso. Ambos ainda cansados e sem condições de serem vistos fora do pequeno compartimento. Decidiram ficar ali mais um pouco.

– Hyung, o que foi isso que aconteceu? – Jeongmin ria ao falar.

– Só queria que soubesse que não sou inocente quanto você pensa – disse já perto do rosto de Jeongmin, o beijando antes que ele respondesse.

– Então tudo isso foi só por causa do que eu disse?

– Claro, pareceu que você me via como uma criança – Jeongmin achava que ele realmente parecia uma criança quando dizia aquilo.

– Mas que fofo – Hyunseong olhou para Jeongmin como se fosse mata-lo e esse riu e o abraçou – Tem algo mais que posso dizer pra te irritar? Por que se eu soubesse que era assim teria começado a te irritar há muito tempo.

– Não sei, você pode tentar – Hyunseong também riu – Agora está provado que não sou inocente?

– Está sim, hyung – se beijaram, agora mais suave e lentamente, afinal, outra sessão daquelas levaria tempo demais. Preferiram, no silêncio, aproveitarem a presença um do outro.

Jeongmin apenas concordou para não levar o assunto a uma discussão eterna. Hyunseong tinha uma obsessão estranha para parecer másculo e sexy, ele queria deixar o outro acreditar que o convencera disso assim como convenceu a si mesmo. Sempre acharia Hyunseong inocente e puro, apesar das coisas contrarias a esses adjetivos que já fizeram juntos, e o amava bem assim.

One Shot – I’d Come For You

Estávamos ali, como sempre, conversando e rindo de qualquer coisa inútil que nos vinha à mente enquanto qualquer filme desinteressante passava na TV sem que estivéssemos prestando atenção. Era assim que aproveitávamos basicamente todas as noites dos fins de semana. Juntos, e não fazendo nada que pudesse ter utilidade, apenas aproveitando a companhia um do outro.

                Eu e meu melhor amigo, Lee Jeongmin, éramos inseparáveis, passávamos boa parte de nosso tempo juntos, e quando não, conversávamos por mensagem. Após cinco anos isso ainda não havia se tornado cansativo. Pra mim, Jeongmin era como oxigênio, não conseguia raciocinar direito se ficasse muito tempo longe dele ou sem ao menos ter contato com ele. Amava cada fio de seus cabelos tingidos e geralmente desarrumados, cada traço delicado de seu rosto. Amava sua risada, descompassada e incontrolada, e o jeito como seus olhos se fechavam quando ria. A maneira como ele sempre animava qualquer ambiente, não importando o quão tenso estava, era praticamente impossível se sentir mal com ele por perto. Eu basicamente amava tudo que se remetia a ele. Tanto, que era até difícil para mim sentir ciúmes quando ele estava com sua namorada YoonJi, as vezes me sentia mal olhando mas isso logo passava quando via o sorriso estampado em eu rosto quando ela estava em sua presença. A única coisa que eu queria era o ver feliz, apenas isso. A felicidade dele me deixava feliz também.

                – Hey, Seongie – Jeongmin disse me tirando de meus devaneios.

                – O que você quer?

                – Por que você acha que eu quero algo?

                – Por que você só me chama de Seongie quando vai pedir algo, fale logo.

                – Nossa, é isso que você pensa de mim né – ele fez bico e eu apenas lancei um olhar de repreensão – Ok, é que eu queria pedir para você me ajudar a estudar pra prova de recuperação de inglês.

                – Sabia. Mas eu sou tão ruim em inglês quanto você, então acho que você pediu para pessoa errada.

                – Mas você sempre tira notas altas.

                – Isso é porque eu estudo antes das provas Jeongmin, você devia tentar um dia.

                – É isso que eu estou tentando fazer agora, me ajude, por favor – ele disse fazendo uma tentativa totalmente falha de aegyo.

                – Ta, eu ajudo, só pare de fazer isso, me assusta um pouco sabe. – ele deu um soco no meu braço e eu apenas ri.

                – Olha, eu sou muito fofo ok?

                – Claro, às vezes fico até impressionado com o quanto.

                – YoonJi diz que eu sou fofo.

                – Ela é sua namorada, ela tem praticamente a obrigação de puxar seu saco, não acredite em tudo que ela diz. – Jeongmin cruzou os braços e se virou fazendo bico de novo – Minnie… não fique bravo comigo – puxei seu braço esquerdo e fiquei o balançando até ele se virar e sorrir em minha direção, sorri também – Então amanha depois da aula a gente fica até mais tarde estudando ok? Vou indo agora – me levantei do sofá e andei me dirigindo à porta.

                – Hyunseong, espere – disse se levantando do sofá e vindo em minha direção – Se despeça de mim direito – ele colocou seus braços em volta da minha cintura e me abraçou. Fiquei um pouco surpreso com a ação, ele não era de fazer isso, mas coloquei minhas mãos em volta do seu pescoço e retribui o abraço. Estava feliz de ter ele tão perto, já que isso raramente acontecia. Mas não podia me deixar levar demais por algo estúpido assim.

                – Mais alguma exigência ou posso ir, senhor? – ri enquanto separava o abraço e o olhava nos olhos tentando descobrir se ele parecia diferente ou algo assim. Mas não vi nada.

                – Nenhuma, pode ir – ele riu e se soltou totalmente de mim – Até amanha.

                – Até – sai pela porta e andei em direção à minha casa que ficava apenas a alguns metros dali. Algo me intrigava, Jeongmin estava um pouco estranho desde o dia anterior, parecia carente, e até um pouco triste, nunca o tinha visto desse jeito antes. Fiquei preocupado, mas o conhecendo achei melhor não perguntar nada, ele sempre se negava a contar qualquer coisa que o deixasse mal e às vezes até começava a gritar. Definitivamente era melhor eu fingir que não havia notado nada.
X
                Acordei sem nenhum barulho similar ao meu despertador e estranhei. Fui rapidamente olhar a hora em meu celular, que estava na pequena estante ao lado da minha cama. Eram 06:40, eu deveria estar pronto e à caminho da escola há 10 minutos atrás. Levantei apressado e me troquei rapidamente pensando em como não havia escutado o despertador tocar. Isso nunca acontecia. Sempre fui pontual e nunca tive problemas para acordar.

Troquei-me e fiz minha rotina matinal em pouco mais de 5 minutos. Peguei minha mochila, coloquei lá dentro os livros necessários para as aulas de segunda feira e me apressei em sair pela porta da frente. Como imaginei, Jeongmin estava sentado na escada em frente à entrada da minha casa. Ele provavelmente estava ali me esperando desde o horário que costumávamos sair de casa todos os dias.

– Desculpe, acordei um pouco atrasado – disse coçando a parte de trás da cabeça em um gesto quase de culpa.

– O que aconteceu? Você nunca se atrasou, quase entrei lá dentro para ver se você estava vivo.

– Não sei, só não dormi direito noite passada, acho que foi isso – começávamos a caminhar pra longe da minha casa.

– Por quê?  – ele me fitava de um jeito preocupado. O que parecia mais estranho ainda considerando que ele aparentemente nunca se preocupava com nada.

– Nada de mais, só insônia – eu não diria a ele que passei a noite em claro pensando no que poderia haver de errado pra deixa-lo mal.

– Bom, se você diz – ele voltou o olhar para o chão e estava tão concentrado ali que parecia querer contar os passos que dava – Sabe, se precisar conversar ou algo assim, pode falar comigo. – parecia um pouco nervoso enquanto dizia e deu um sorriso tímido ainda encarando o chão.

– Lee Jeongmin agindo como uma pessoa legal, você está doente? – Disse colocando a mão em sua testa, como faria para medir uma febre e ele riu.

– Não, não estou – ele tirou minha mão da sua testa e continuou – Eu sou uma pessoa legal, só que não gosto de falar de coisas sérias sempre, me irrita.

– Entendo – eu queria dizer que ele também podia contar comigo e perguntar o que havia de errado, mas não parecia o momento certo, achei melhor esperar mais um pouco. Mas eu definitivamente descobriria isso logo.

Seguimos o caminho até à escola rindo e conversando sobre coisas totalmente aleatórias. As aulas seguiram da mesma maneira. Eu estava tentando distrair Jeongmin de qualquer coisa que pudesse o estar preocupando. E parecia estar funcionando, mesmo que temporariamente.

No término do horário das aulas, fomos à biblioteca, como marcado no dia anterior. Nos sentamos em uma das mesas e começamos a estudar. Eu tentei ensinar o que fazia pra decorar toda a matéria a ele, e ele parecia bastante focado no que eu dizia. Geralmente ele me ignorava totalmente quando eu falava algo sobre escola, aquilo estava ficando cada vez mais estranho.

Enquanto ele fazia alguns exercícios do livro que ele não tinha feito na aula, eu lia um livro que havia deixado a leitura na metade antes da semana de provas. Então o fitei, ele parecia seriamente concentrado, e não muito agressivo, acho que se eu perguntasse algo ele não começaria a gritar como um louco dentro da biblioteca.

– Jeongmin.

– Fale – ele disse sem tirar os olhos de seu caderno.

– O que está acontecendo? Você não parece bem ultimamente. – quando terminei de dizer ele me fitou com um olhar indecifrável.

– Não está acontecendo nada – então voltou a atenção ao seu caderno.

– Jeongmin, não tente esconder, eu te conheço bem o suficiente pra saber quando você está estranho, e você está agora.

– É tão óbvio assim? – ele deu um sorriso de canto em minha direção.

– Talvez – sorri também, era praticamente impossível não o fazer com qualquer tipo de sorriso vindo dele – Vai me dizer o que é?

– Tudo bem, eu digo – ele largou a caneta e apoiou os braços sobre a mesa enquanto me fitava sério – É que… – sua frase logo foi interrompida.

– Hyunseong, Jeongmin, acho que a primeira vez que vejo vocês juntos por aqui – DongHyun disse já se sentando em uma cadeira do meu lado.

– Muito engraçado hyung. Vim aqui porque fiquei de recuperação em inglês e o Hyunseong hyung está me ajudando com a matéria – nunca entendi o porque dele me chamar de hyung apenas quando não estávamos sozinhos.

– Hyunseong-ah, acho que só de trazer ele aqui é um grande avanço – apenas ri e voltei minha atenção pro livro que estava lendo anteriormente.

– Hyungs, vou pegar um livro antigo do segundo ano pra ver alguns exercícios, já volto – Jeongmin disse e saiu em direção às prateleiras ao lado da mesa que estávamos. Ele parecia tão incrível concentrado daquele jeito que não pude deixar de olhar.

– Hyunseong – ouvi uma voz chamando, mas não dei muita atenção, estava muito distraído – HYUNSEONG – levei um susto com DongHyun gritando meu nome e batendo na mesa.

– Hyung, que susto. Não fale assim tão alto na biblioteca – sussurrei e fiz um gesto mostrando a ele que deveria fazer silêncio.

– Você começou a gostar do Jeongmin agora ou eu que não reparei antes?

– O QUE? – me assustei mais ainda que antes com a pergunta. Comecei a ficar nervoso – Do que você está falando? – disse tentando parecer calmo.

– Achei que não pudesse falar nesse tom na biblioteca – ele riu – Mas então, acho que você devia falar com ele.

– Hyung, você está ficando louco – ele me fitou sério, como se soubesse o que se passava pela minha cabeça – Ele é hétero, hyung, você sabe que ele tem namorada.

– Então você admite?

– Eu não disse nada… ah, esquece – resolvi desistir de tentar reverter a situação já que ele não tinha mais reversão.

– Sei de tudo isso, mas você vai ficar escondendo isso para sempre?

– É melhor, não quero perder a amizade dele.

– Bom, se você prefere assim – então ele parou de repente e começou a falar sobre qualquer assunto quando viu Jeongmin voltando para a mesa. Ele pareceu não desconfiar que estávamos falando dele há alguns segundos atrás.

Resolvi ignorar o fato de que havia dito aquilo para DongHyun. Não era algo pra me preocupar agora e tinha quase certeza que ele não diria nada, mesmo não confiando totalmente.
X
Depois de estudarmos na biblioteca, eu e Jeongmin fomos até uma lanchonete perto das nossas casas tendo em vista que na última semana do bimestre as aulas eram apenas pela manha. Escolhemos uma mesa ao fundo como sempre fazíamos quando íamos até lá.

– Então, sobre o que você ia me falar na biblioteca… – comecei falando até ele me interromper.

– Você quer mesmo saber? Não é nada de muito importante – dizia indiferente, talvez tentando me convencer que aquilo não o incomodava.

– Claro que é importante, qualquer coisa que te deixe mal é importante.

– Tudo bem – soltou um pequeno riso antes de continuar sério – É a YoonJi, eu tenho certeza que ela está me traindo.

 – A YoonJi? Não acredito que ela faria isso.

– Não sei se já te disse, mas só estamos juntos por causa dos nossos pais. – me senti um pouco mal por estar aliviado ouvindo aquilo.

– Nunca disse, você parece gostar dela.

– Claro que eu gosto, muito, mas não desse jeito. Ela sabe disso e eu também sei que ela não gosta de mim assim. Mas isso já foi longe demais.

– Por que não termina com ela então?

– Meus pais, eles me matariam, com certeza, eles já não gostam muito de mim.

– Não fale assim, eles são seus pais, mesmo que não pareça eles gostam de você.

– Gostaria de pensar assim – ele riu enquanto tomava um copo de coca-cola de um jeito dramatizado como se estivesse tomando algo com alto teor alcoólico – Mas não penso, então.

– Você não pode passar sua vida fazendo o que eles querem.

– Concordo. Acho que vou falar com a YoonJi e resolver isso logo, sei que ela vai aceitar sem problemas.

– Então é isso, depois você fala com seus pais, eles podem entender.

– Não acredito que vão entender, mas vou tentar mesmo assim – sorriu em meio a frase – Obrigado Seongie.

– Não precisa agradecer, acho que você não sabe, mas amigos são pra isso – disse segurando sua mão esquerda com minhas duas mãos e rindo.

– Seu idiota, eu sei – riu também, colocou sua mão direita sobre as minhas e ficou me encarando por um tempo. Tempo que pôde ser considerado constrangedor. Então desviei meu olhar e separei nossas mãos.

– Melhor irmos para casa logo – peguei minha mochila e levantei rapidamente querendo acabar com o clima estranho que ficou no ar por alguns segundos.

– Sim, vamos – levantou apressado em me alcançar já que eu estava longe e quase fora da lanchonete.

Durante o caminho ficamos rindo de qualquer coisa dita como de costume. Jeongmin continuou me encarando todas as vezes em que ficávamos em silêncio. Provavelmente ele vira o rubor em minha face quando fazia isso. Tentava desviar o olhar ou começar a falar de algum jogo, ou programa de TV, mas ele continuava.

– Minnie, eu sei que sou muito bonito, mas não precisa ficar me encarando desse jeito – finalmente disse pra ver se ele parava de uma vez.

– Por que você é tão metido? Eu sou bem mais bonito que você.

– Claro que não é. E pare de ficar me olhando assim ou vou ficar mais metido ainda – ele apenas meneou a cabeça e riu. Achava incrível como qualquer clima tenso se dissipava com apenas uma frase dita entre nós.

Nos despedimos quando entrei em minha casa e Jeongmin seguiu para a dele. Tinha o dito pra vir à minha casa assim que resolvesse tudo para estudarmos mais um pouco antes do teste. Ele havia concordado e disse que viria logo.

Fiquei pensando em tudo que havia ocorrido ao longo do dia. Tudo parecia muito estranho. Até pensei em ter um pouco de esperança sobre aquilo, mas logo tirei o pensamento da minha cabeça. Ter esperanças sobre algo impossível ia apenas piorar as coisas.
X
Estava jogando videogame por pouco mais de uma hora enquanto esperava Jeongmin. Depois passei mais tempo no computador fazendo qualquer coisa inútil, estava preocupado, muito.

Já passava das 22hrs quando resolvi ligar para ele. Havia passado muito tempo e ele não havia aparecido ainda. Não conseguia evitar a apreensão, então liguei.

Caia sempre na caixa postal. Pensei em onde ele poderia estar, mas achei melhor acabar com a ideia que não era das melhores. Liguei no telefone residencial e ninguém atendeu. Nossos amigos também não imaginavam onde ele podia estar. No fim, peguei meu casaco e sai para a rua, em direção ao único lugar que ele estaria. Sempre ficava nervoso quando o ia buscar nesse tipo de lugar, os odiava. Por isso não demorei a encontrar uma mesa ao fundo do estabelecimento, ocupada apenas por um garoto de cabelos vermelhos e com um chapéu estranho. Me aproximei rapidamente.

– Jeongmin, vamos – disse perto de seu ouvido para que pudesse escutar e ele apenas me encarou e se levantou em direção ao balcão. Me dirigi a porta da frente do bar porque não queria ficar muito tempo naquele lugar cheio de velhos inconscientes de seus atos. Logo Jeongmin se aproximou de mim e fomos caminhando em silêncio até sua casa.

Chegamos e nos sentamos em uma mesa posicionada na cozinha. Eu tinha que falar algo, mas não sabia quais palavras usar e por onde começar. Não podia dar uma bronca nele de qualquer jeito e parecendo nervoso, ou não adiantaria nada. Ele ficava apenas me encarando, sem dizer nenhuma palavra, provavelmente já tendo em mente que eu ia começar a reclamar, eu sempre fazia isso. Resolvi começar logo antes que aquele silêncio desconfortável durasse por muito mais tempo.

– Por que você foi pra lá de novo? E sem me avisar? Eu fiquei te esperando sabia? – tentei transparecer toda a confiança que eu não tinha. Era sempre difícil ter que falar desse jeito com ele.

– Eu estou cansado, queria ficar um pouco sozinho.

– E precisava ir para lá? Ficar bebendo? Você sabe que não é muito tolerante a álcool, além de ser perigoso voltar sozinho pra casa, fica sempre mal depois e… – fui logo interrompido por gritos.

– Não aja como se você se importasse, eu sei que não, ninguém se importa de qualquer jeito – ele gritou enquanto sua voz decaia de tom em meio a frase até atingir um tom quase inaudível.

– Claro que eu me importo, eu fiquei por horas te esperando e preocupado com você, estava quase indo na polícia registrar seu desaparecimento. Ai lembrei de onde você estaria e fui te buscar mesmo odiando aquele lugar e você ainda diz que não me importo?

– Isso é porque você é chato e não quer ver ninguém fazendo coisas que não sejam chatas. Você não entende, somos diferentes demais pra isso, nem sei porque somos amigos ainda.

– Ah, não sabe… Tudo bem, já que eu sou tão chato assim vou te poupar de falar comigo – sai rápido do apartamento batendo a porta de maneira a fazer um grande estrondo, não ia aguentar ficar muito tempo ali segurando as lágrimas que insistiam em cair.

Andei apressado até minha casa e por sorte meus pais já estavam dormindo. Entrei no meu quarto e finalmente me permiti chorar com provavelmente todos os litros que água que existiam em meu corpo. Aquelas palavras haviam doído mais que todas as dores que já havia sentido na minha vida toda. E doía mais ainda pensar que teria que cumprir o que tinha dito, ter que ficar longe de Jeongmin, me sentia horrível só de imaginar como seria. Mas eu não podia simplesmente voltar atrás. Jeongmin sempre achava que tudo ia ser do jeito dele, dessa vez não. Já que ele achava que ninguém se importava era melhor deixar ele ver como é estar sozinho de verdade.
X
Não consegui dormir por mais de duas horas naquela noite. As cinco da manha já estava acordado me distraindo com qualquer aplicativo do meu celular até chegar a hora de me levantar.  Comecei a me arrumar as 06:00, queria sair mais cedo de casa porque não sabia se Jeongmin estaria me esperando na hora certa como sempre, ele era imprevisível, era possível ele simplesmente agir como se não tivesse feito nada.

Quando cheguei na sala me sentei numa carteira do lado oposto da que costumava me sentar, estava realmente disposto a fazer aquilo. Se era o que ele queria, era o que ia ter, por mais que me doesse mais a cada vez que eu pensava sobre.

Enquanto a aula passava, não podia deixar de olhar em direção a ele, estava sentado na carteira de sempre, e toda vez que olhava ele já estava me encarando. Com um olhar que eu não pude dizer se era raiva, tristeza ou talvez cansaço. E eu sabia que era por minha causa. Apenas não entendia o porquê disso depois das palavras que proferiu na noite anterior. Mesmo que estivesse sobre efeito do álcool, estava sóbrio o suficiente para saber o que estava dizendo.

Aquilo era estranho, nunca tínhamos brigado antes. Desde que nos conhecemos não passamos sequer um dia sem nos falar. Me sentia no mínimo vazio, de repente parecia que ele era a única pessoa do mundo com quem eu podia rir e falar idiotices. Pensando bem, era realmente isso, Jeongmin foi a minha felicidade por muito tempo. Mas isso teria que acabar agora de qualquer maneira.

Três dias se passaram daquele jeito. Começava a voltar atrás na minha decisão, mas não parecia a melhor opção, então só continuei, não houve nenhum tipo de iniciativa de nenhuma das partes.

Depois da escola fui para casa, e como não tinha nenhum dever de casa apenas fiquei deitado na minha cama lendo um livro e tentando focar minha mente nele, o que não parecia funcionar. Então ouvi uma batida na porta, provavelmente era minha mãe, logo fui abrir. Mal pude pensar e senti um corpo se chocando contra mim e me jogando para o lado da parede do outro lado do quarto enquanto me abraçava pela cintura.

– Hyunseong, me desculpe, por favor, por favor. Eu não queria ter dito aquilo, eu… – Jeongmin dizia tão rápido que nem conseguia respirar direito até que o interrompi.

– Espera, como você entrou aqui em primeiro lugar? – o tirei um pouco de perto de mim apesar de querer o abraçar com ainda mais força com que ele tinha feito no último segundo.

– Você sabe que sua mãe sempre abre pra mim. Mas esse não é o ponto, eu vim aqui te pedir desculpas, não consigo ficar sem falar com você, me desculpa? – ele parecia estar quase chorando enquanto dizia aquilo, então não aguentei e o abracei.

– Tudo bem, eu também não ia conseguir ficar muito mais tempo longe de você – passava a mão entre os fios de seu cabelo enquanto ele repousava sua cabeça no meu ombro.

– Eu sou um idiota, te tratei mal mesmo com você se preocupando comigo.

– Você é um idiota mesmo – ri e ele bateu de leve no meu braço e riu também – mas eu já estou acostumado com isso.

– Prometo que vou ser menos idiota então, e só vou tentar beber de novo se estiver em casa e com supervisão, ok?

– Ainda não é o ideal, mas já é um avanço. – então ele tirou a cabeça do meu ombro e me encostou na parede mantendo nossos corpos com pouquíssima distância.

– Senti tanto sua falta… – ele murmurou e foi chegando mais perto até acabar com a distância que havia entre nós selando nossos lábios. Retribui o beijo sem pensar duas vezes, não sabia muito bem o motivo daquilo, mas achei melhor aproveitar. Íamos aprofundando aquilo cada vez mais. O beijo parecia um tanto necessitado, como se precisássemos fazer isso há muito tempo, como se os anos de desejo reprimido estivessem sendo depositados ali. E por incrível que pareça não apenas da minha parte. Aquela sensação foi a melhor que já senti, não queria me separar de Jeongmin nunca mais. Colocava meus braços em volta do seu pescoço enquanto ele me pressionava na parede. Comecei a achar que aquilo estava indo longe demais até que ele refez a distância. Ficamos parados encarando um ao outro sem nenhuma expressão no rosto enquanto recobrávamos o ar.

– Acho melhor esquecermos isso – disse enquanto saia de perto dele em direção a qualquer lugar em que eu pudesse pensar claramente.

– Não vamos esquecer nada – me seguiu e agarrou meu pulso com intenção de que eu me virasse de volta pra ele – Se esquecermos, não vou poder fazer isso de novo – então ele me beijou novamente, dessa vez apenas um selinho leve. Após isso, sorriu para mim e eu não pude deixar de sorrir também.

– Você sabe que isso é errado né?

– Não vejo nada de errado em querer ficar perto da única pessoa que eu sei que nunca vai me abandonar, e que vai me apoiar sempre, por mais idiota que eu seja.

– Jeongmin, não é disso que eu to falando, é que…

– Eu sei, que nós dois somos meninos blá blá blá, acha que não percebi isso? Só que achei melhor ignorar porque já tava cansando disso. Você se importa?

– Não, eu só não achei que você pensasse assim.

– Você gosta de mim não gosta? – sorriu enquanto me abraçava de novo. Fiquei imaginando se fui tão óbvio esse tempo todo.

– Claro que gosto, você sabe que sim.

– Também gosto muito de você Seongie – nos beijamos rapidamente mais uma vez. Parecia que íamos ficar nos beijando após cada frase dita. – me promete uma coisa?

– O que?

– Que você nunca vai me deixar, que vai estar sempre aqui.

– Prometo, vou sempre estar, como sempre estive – ficamos ali por um tempo num silêncio confortável.

Estava feliz, não só porque tinha Jeongmin, mas porque poderia ter certeza que eu sempre estaria ali pra ele quando ele precisasse. Que sempre protegeria ele de qualquer coisa e que ele nunca estaria sozinho.

One Shot – Mais Ninguém

Escrevi essa fic especialmente por causa do aniversário do meu bebezinho, Hyunseong. Queria desejar tudo de bom pro meu anjo, e muita, muita, muita felicidade  

XXX

Faltavam três dias para o aniversário de Hyunseong, e ele estava me ignorando pelas duas últimas semanas. Talvez fosse minha culpa por tê-lo ignorado primeiro, mas eu sempre ignorava e ele insistia em me procurar assim mesmo. Já achei esse comportamento irritante, até briguei com ele por causa disso, mas o que mais queria agora era que ele viesse correndo me abraçar dizendo que não ia me largar não importa o que acontecesse. Parece que dessa vez, o que aconteceu foi demais para ele continuar querendo ficar perto de mim.

Há três semanas estávamos sozinhos dentro de uma sala de ensaios. Deveríamos estar ensaiando, mas estávamos apenas jogando conversa fora. No meio dessas conversas chegamos a falar de amor, todas essas idiotices que se fala as duas da manha com um pouco de sono. Sempre achei que falava demais quando estava perto de Hyunseong, ele parecia ter um encanto que fazia com que eu falasse tudo que estivesse pensando, meus sentimentos, esperanças, medos, coisas que eu não falava para ninguém, com ele se tornavam naturais. Tão natural que eu mal percebi que estávamos perto demais um do outro, só me dei conta quando nossos lábios se tocaram. A coisa sensata a fazer seria se afastar, afinal, não é uma das coisas mais morais e politicamente corretas beijar seu melhor amigo numa sala escura à noite, mas a única coisa que se passou pela minha cabeça no momento foi “Aproveite, você pode não ter outra chance como essa” e simplesmente me parecia a coisa certa a se fazer me entregar àquele beijo. Hyunseong pareceu pensar o mesmo, pois logo ansiava por mais contato. Ficamos por um tempo ali nos beijando, apenas parando para respirar e voltando ao beijo. Retornamos à nossa casa sem conversar sobre o que aconteceu.

No outro dia, acordei me sentindo um bêbado que tinha feito uma besteira enorme sob efeito do álcool, com a única diferença de que nenhuma substância era responsável por aquilo, apenas um sentimento mais forte que eu que havia me controlado. Parando para pensar, aquilo soou um enorme absurdo em minha mente, beijar Hyunseong? Por quê? Desde quando eu gostava de beijar garotos? Nenhuma dessas perguntas pareceram importantes na hora, mas agora precisava encontrar uma resposta.

Consegui encontra-la, a resposta era que estava me sentindo carente por muito tempo, e por ser próximo de Hyunseong esse carinho se transformou em desejo por alguns minutos, apenas uma coisa sem importância, e foi isso que disse a ele quando conversamos sobre o assunto. Ele sorriu e disse que eu estava certo, para esquecermos tudo, mas enquanto sorria, seus olhos pareciam tristes. Deve ter doído um pouco nele terminar o que nem havia começado, e por incrível que pareça, também doeu em mim.

Parecíamos quase estranhos depois disso, nossas conversas se resumiam a comentar algo que estava passando na TV, toda a proximidade que construímos ao longo dos anos pareceu desmoronar em minutos e aquilo me matava por dentro. Sentia tanta falta dele que indaguei se aqueles beijos realmente foram um erro, ou se foram algo que eu negava sentir. Também me lembrei que não perguntei a Hyunseong o que ele achava daquilo, estava tão desesperado para negar tudo que me esqueci completamente dos sentimentos dele. Com certeza fui um amigo horrível, não me admirava que ele me ignorasse.

Mas com essa data chegando, não pude me esquecer de uma promessa que fiz quando nos conhecemos. Uma semana antes de seu aniversário, o perguntei se ele estava animado, e ele me respondeu que não ligava porque não era nada especial. Para mim, aniversário é uma data incrível, é o seu dia, para se lembrar porque estava ali por mais um ano, para as pessoas próximas se lembrarem porque se tornaram próximas, a melhor data de todas. Naquele dia, prometi à Hyunseong que a partir dali, faria com que seu aniversário fosse especial todos os anos. Me esforçava sempre para fazer festas e comprar presentes, qualquer coisa que me deixasse ver aquele lindo sorriso e olhos radiantes de felicidade. Esse ano parecia que seria diferente,  mas não queria deixar algo tão bobo estragar uma coisa de dimensões extremamente maiores. Então, faria o de sempre, mesmo que as coisas não fossem mais as mesmas.

X

Segunda-feira, faltavam menos de vinte e quatro horas para o grande dia, fui ao mercado e comprei algumas coisas para comer, os pratos favoritos de Hyunseong. Sem me esquecer de um bolo de frutas da melhor confeitaria da cidade, nunca fui bom em cozinhar, preferia que alguém fizesse o bolo por mim. O presente dessa vez achei melhor não comprar, queria começar a fazer depois de hoje, o resultado da conversa com certeza iria interferir no produto final.

Cheguei em casa e Hyunseong estava dentro de seu quarto, em silêncio. Já era noite, comecei a arrumar tudo o que tinha comprado na sala, não havia mais ninguém em casa, paguei um jantar para que todos saíssem e nos deixassem em paz por um tempo.

As onze e cinquenta e nove, estava na porta do quarto, contando os segundos para entrar. O nervosismo tomava conta de mim, mas desistir agora não era uma opção, eu tinha que fazer isso. O relógio marcou meia noite, respirei fundo, abri a porta, entrei e logo em seguida a fechei atrás de mim. Hyunseong estava deitado, jogando em seu PSP, quando entrei ele parou de jogar para olhar para a porta, parecia surpreso de me ver ali, provavelmente nem notou que já era seu aniversário. Fui até sua cama, me joguei em cima dele e o abracei.

– Feliz aniversário, Hyunseong – ele começou a rir, não sei qual é a graça da situação, mas ele sempre ri de tudo, independente de ter graça ou não.

– Obrigado Jeongminnie, não sabia que já era tão tarde.

– Vamos para a sala, sua festa está lá – ele me olhou chocado.

– Festa??

– Sim, vamos? – ele concordou e fomos até o outro cômodo – Meu objetivo era fazer uma festa surpresa e chamar algumas pessoas, mas achei que precisávamos de um tempo sozinhos, se não se importa.

– Fico feliz que quer ficar comigo, e obrigado por preparar tudo isso, eu realmente não esperava – ele sorriu para mim, me senti dez vezes melhor só de ver aquele sorriso de novo.

– Não se lembra que prometi passar todos seus aniversários com você?

– Claro que me lembro – continuou sorrindo e então sentou no sofá da sala, me sentei ao seu lado.

– Hyunseong, sei que as coisas andam estranhas entre a gente nas últimas semanas, eu sinto muito a sua falta, não tive coragem de falar isso antes, mas não poderia passar de hoje, não dava mais para adiar.

– Também sinto muito a sua falta, você não sabe o quanto – se aproximou e segurou minha mão. Me senti mais seguro em ver que ele não parecia bravo comigo ou nada assim.

– Olha, preciso te dizer uma coisa.

– Pode falar, Jeongminnie – ele continuava segurando minha mão, fazendo um leve carinho nela e olhava diretamente em meus olhos. O nervosismo que eu estava sentindo antes tinha desaparecido completamente, Hyunseong sempre me fazia ter segurança em falar o que quer que seja, sabia que ele consideraria tudo o que eu falasse, sabia que podia confiar nele.

– Acho que fui um pouco precipitado naquele dia, do beijo sabe, eu não sabia o que pensar, a primeira coisa que me veio na cabeça era que eu estava ficando louco, mas esse tempo que tive para pensar melhor, percebi que o significado daquilo foi outro, que eu só não queria ver. Eu gosto muito de você, Hyunseong, acho que talvez não só como seu melhor amigo – ele me olhava sem nenhuma expressão aparente, comecei a ficar nervoso, ele não sentia o mesmo, sentia? Já me arrependia de ter dito tudo antes que ele quebrasse o silêncio.

– Também preciso te dizer algo – chegou mais perto de mim antes de continuar – Eu te amo, Jeongmin, sempre amei – o que? Como ele falava aquilo com tanta facilidade? O olhava com os olhos arregalados pela surpresa – Sei que parece estranho, mas eu te amo desde sempre, só não podia chegar falando algo assim do nada. No dia que nos beijamos, achei que as coisas finalmente iam mudar, mas você me disse que foi tudo um erro, achei melhor me afastar, pensei que não me queria mais por perto depois daquilo.

– Sempre vou te querer por perto – cheguei mais perto para o abraçar, me sentia tão bem próximo dele, e depois de contar tudo e ouvir sua resposta, era como se um peso enorme fosse tirado das minhas costas. Ficamos ali por um tempo sem falar nada, apenas aproveitando o momento, que pareceu eterno mas quando acabou era como se o eterno não fosse o suficiente.

– Jeongmin… nós estamos juntos agora? Você sabe… juntos – ele falava com uma excitação que beirava o medo, apenas ri, antes de responde-lo.

– Claro, se você quiser podemos ficar juntos.

– Eu quero, quero muito – não pude evitar sorrir de novo antes de capturar seus lábios em um beijo.

Ele parecia surpreso, mas em menos de um segundo nossos movimentos já entravam em sintonia. Esse beijo era tão intenso quanto o último que dividimos, o qual eu não esqueci um detalhe sequer, mas era ainda melhor, não sei se o fato de saber exatamente o que estava fazendo melhorava ou piorava as coisas na minha mente, mas tentei apenas focar no que estava acontecendo ali, tudo parecia um sonho. Fomos interrompidos por várias vibrações ao mesmo tempo, seguido de um celular tocando. Gemi em reprovação e continuei o beijo por um tempo, até Hyunseong nos separar.

– Jeongmin, eu preciso atender, deve ser minha mãe desejando feliz aniversário.

– Tudo bem, tudo bem – não queria ser interrompido, mas também não queria que a mãe de Hyunseong ficasse se perguntando por que ele não atendeu o telefone.

Ele ficou falando no telefone por um tempo, quando desligou, fomos comer e ele estava respondendo algumas mensagens, pelo jeito, muitas mensagens.

– Não sabia que você era tão popular – ele riu sem tirar os olhos do celular.

– Não sou popular.

– Claro que é, olhe quantas mensagens você está recebendo.

– Já está com saudades de me beijar, é isso?

– Na verdade é isso sim – ele não disse mais nada, apenas veio em minha direção e me beijou. Nos deitamos no sofá juntos e ficamos ali, o celular ainda vibrando em cima da mesa, indicando que mensagens ainda chegavam – Não vai responder? – disse ao separar nossas bocas.

– Faço isso depois, não posso te deixar aqui com vontades, Jeongminnie – apenas ri e lhe dei um selinho, que ele já ansiava para responder, mas o parei antes.

– Pode ir lá, eu espero.

– Mesmo? Não vai ficar bravo comigo?

– Claro que não, Hyunseong – ele me deu um último beijo antes de se levantar e ir em direção ao celular.

Poucos minutos depois, nossos colegas de apartamento chegaram todos cantando (gritando) feliz aniversário para Hyunseong. Ficamos todos conversando por um tempo, até decidirmos que já era hora de dormir. Tive que arrumar tudo já que eu havia bagunçado, então fiquei para trás, já calculando ao menos mais meia hora acordado. Enquanto começava a levar as coisas para a cozinha, senti dois braços se entrelaçando em minha cintura por trás e não pude deixar de sorrir.

– Precisa de ajuda com isso?

– Não preciso, hoje é seu aniversário, pode descansar – Hyunseong fingiu que não me escutou e me soltou para pegar os pratos que faltavam e levar para a cozinha. Terminamos tudo e ainda ficamos um tempo na cozinha conversando, principalmente sobre o que havia acontecido nas semanas em que passamos separados, era impressionante quanta fofoca se acumulava em tão pouco tempo.

– Jeongmin, você realmente cumpriu sua promessa, não conseguiria pensar em um aniversário melhor que esse.

– Mas o dia ainda nem começou, vai ficar ainda melhor – sorrimos um para o outro antes de começar outro beijo.

Talvez o aniversário fosse mesmo uma data especial e mágica, mas percebi que perto de Hyunseong todas as datas eram especiais e mágicas, todos os dias, todas as horas, todos os segundos, absolutamente tudo. Como não ser assim se eu estava perto da pessoa mais especial da minha vida?

One Shot – Toxic

Outra tarde de sexta e eu estava lendo um livro de poemas, sentado no sofá e esperando Jeongmin para que pudéssemos passar o dia juntos, como sempre. Esse livro era muito bom, tinha vários poemas românticos, que são meus preferidos, ainda não acreditava que o tinha achado depois de tanto tempo procurando nas livrarias próximas, e algumas nem tão próximas.

A sala estava tão silenciosa – ou eu estava tão imerso na leitura – que levei um susto com a campainha tocando. Após passar alguns segundos me recuperando do mini ataque cardíaco, levantei para abrir a porta.

Me deparei com um Jeongmin sorridente e com uma mochila enorme nas costas. Apenas sorri também e fiquei ao lado da porta para que ele pudesse entrar. Ele estava usando uma camisa xadrez vermelha, calças apertadas pretas e estava com aqueles brincos, meu deus, aqueles brincos, ficavam muito sexy nele – o que? Esqueça a última frase – também usava um par de botas com salto que o deixavam – quase – da minha altura.

Depois de guardar suas coisas, ficamos sentados na sala conversando, ele me perguntou o que eu estava fazendo para demorar tanto para abrir a porta, disse que estava lendo. Quando ele perguntou o nome do livro, eu respondi, mas já sabia que ganharia um olhar com um ponto de interrogação, já que Jeongmin só lê nomes dos sites de pornô na internet e o único livro que já soube o nome foi Crepúsculo. Então comecei a explicar sobre o livro, que era uma coletânea de poemas que continha inúmeros versos românticos e que era incrivelmente bom, não conseguia parar de ler. Estava entusiasmado explicando até perceber que ele estava prestando atenção em qualquer coisa, menos no que eu estava falando. Ele olhava fixamente para algo.

– Jeongmin, você está me ouvindo? – ainda não obtive resposta – JEONGMIN.

– Oi, o que? Parece muito bom esse livro, Hyunseong hyung.

– Você nem estava ouvindo.

– Estava sim, é de poemas sobre guerra né?

– Não, é de poemas românticos – dei um tapa leve em sua cabeça e ele apenas resmungou em resposta – Por que eu leria sobre guerra?

– Sei lá, você vive lendo coisas.

– O que você estava olhando para estar tão distraído?

– Er… nada não.

– Sinto que esse nada é alguma coisa.

– Quer mesmo saber?

– Sim.

– Então… estava olhando pro seu braço – o que?

– Você estava olhando o que?

– Seus braços, são tão bonitos.

– São? – já ouvi alguns elogios sobre meu corpo, mas sobre os braços era novidade.

– São sim – ele parou de falar e ficou me encarando, quando resolvi responder ele continuou – Posso tocar?

– O que?

– Esses livros estão te deixando lesado, hyung – ele riu e se aproximou um pouco de mim no sofá, um pouco demais – Perguntei se posso tocar seus braços.

– Acho que pode.

Então ele colocou as mãos no meu braço esquerdo e começou a acaricia-lo levemente, o que me deu arrepios pelo corpo todos, depois os apertou suavemente. Senti minha respiração um pouco pesada.

– Jeongmin? – ele respondeu com um simples ‘hum’ ainda entretido em apertar meu braço – O que você está fazendo?

– Nada demais, hyung.

Ele sorriu e se aproximou ainda mais de mim, beijando meu bíceps e deixando mordidas ali. Sem querer, soltei um gemido. Ele me olhou com um sorriso muito suspeito e moveu sua mão para trás do meu cabelo, fincando seus dedos ali, a outra mão segurava minha cintura. Senti sua respiração no meu pescoço até que ele começou a repetir os movimentos anteriores naquela região, porém mais fortes. Antes que eu percebesse já estava com as mãos em volta da sua cintura, chegando em suas costas, onde eu arranhava um pouco querendo sentir mais.

– Seu pescoço também é lindo, hyung – murmurou ainda na mesma posição.

– Jeongmin, não sei se deveríamos fazer isso – ele se afastou um pouco para me olhar.

– Qual o problema em deixar seu Jjomaennie te tocar um pouco? – com aquele olhar era impossível discordar de qualquer coisa que ele dizia.

– Nenhum – respondi ainda meio perdido no que estava dizendo.

– Então deveríamos – se aproximou de mim, dessa vez para beijar meus lábios.

Me lembrei de quantas vezes já imaginei essa cena, e quantas vezes já tentei arranca-la da cabeça por ser impossível. Mas estava acontecendo naquele momento, não poderia ser mais surreal, parecia um sonho. Seu beijo era perfeito, assim como quem o executava. Apesar de eu estar totalmente satisfeito com o rumo que as coisas haviam tomado, ele ainda parecia querer mais.

Separou nosso beijo e se deitou no sofá puxando minha camisa para que eu ficasse deitado em cima dele. Como já estava naquela posição, resolvi continuar o beijando ali mesmo. Aquele gosto era intoxicante, quando nossos lábios se tocavam, a única coisa que eu desejava era que não se separassem nunca. Mas como precisávamos de oxigênio, eles se separam por uns instantes, até o ar voltar aos pulmões e conseguirmos voltar as atividades anteriores.

Não sei quanto tempo tinha se passado até quando comecei a sentir meu corpo quente, e foi quase um alívio quando Jeongmin começou a desabotoar minha camisa. Também comecei a tirar a sua e antes que eu pudesse perceber, estávamos seminus no sofá com a respiração pesada e totalmente excitados.

– Hyung, eu sempre quis fazer isso – ele sussurrou perto do meu ouvido, o que me deu ainda mais arrepios.

– Mesmo? – foi a única coisa que consegui responder, minha mente não estava raciocinando direito.

– Sim… você não?

– Muito, sempre quis muito – ele apenas sorriu e voltou a me beijar.

Tinha uma queda por Jeongmin desde que eu consiga me lembrar. Sempre lia coisas românticas e melosas pensando nele, sempre ficava perto dele o máximo que podia, mas achei que se fizesse qualquer coisa que não fosse apenas sinal de uma relação de amizade ele poderia se assustar e nunca mais falar comigo. Acabo de perceber que estava errado, que devia ter feito algo há muito tempo atrás.

Ele abriu o zíper da minha calça e a puxou para baixo. Ajudei a tira-la e quando terminei comecei a tirar a dele também. As boxers se foram bem rápido e já estávamos nus nos agarrando como se o mundo tivesse parado só para aquele momento.

– Isso pode doer um pouco, hyung – ele disse enquanto descia as mãos pelo meu corpo.

– Tudo bem, pode continuar – então deixei com que tudo aquilo tomasse conta de mim.

X

Estávamos deitados no sofá tentando recuperar a respiração.

– Nós vamos fazer isso outra vez? – perguntei.

– Quando você quiser – ele riu levemente e eu também ri, sua risada era tão contagiante – O que você fez pro jantar?

– Noddles.

– Claro, por que imaginei outra coisa? – ele me deu um beijo na bochecha e se levantou para pegar suas roupas.

Jantamos e passamos o resto da noite como se nada tivesse acontecido. Mas nós dois sabíamos que sim, aconteceu, e sim, aconteceria de novo.

One shot – Stay The Night

Esse apartamento carregava tantas lembranças que eu mal conseguia decidir qual delas fazia com que eu me sentisse pior. Sentia falta de viver aqui, mesmo achando que saí porque era o melhor para ambos. Até o cheiro me parecia familiar, o lugar que eu estava sentado no sofá e que já ocupei tantas vezes, e até mesmo o barulho estranho que o aquecedor fazia as vezes. Era como se estivesse anos longe daqui mesmo que fosse apenas por um mês. Resolvi simplesmente tirar esses pensamentos da minha cabeça e me levantei.

– Hyunseong, preciso ir embora – quando ele me convidou pra vir até aqui pensei que aguentaria mais tempo.

– Não, espere, você vai sair nessa chuva? – ele segurou meu pulso antes que eu pudesse dar ao menos um passo. Olhei para ele por um segundo, depois olhei pra janela. Mal tinha reparado que a chuva estava tão forte.

– Tudo bem, não sou feito de açúcar, consigo atravessar uma chuvinha dessas – forcei uma risada enquanto me soltava de sua mão e comecei a andar para a porta. De repente senti os braços dele me cercando.

– Jeongmin… Fique, por favor, pelo menos até a chuva passar – ele disse naquele tom que soava como uma criança de cinco anos pedindo uma bala e me abraçava por trás como se por aquele momento houvesse esquecido que já tínhamos terminado.

– Se eu esperar vai ser tarde para ir para casa – estava amando ficar ali, por mais que nunca admitisse isso. Acho que esse era o principal motivo para querer sair.

– Então por que você não dorme aqui? – quando ouvi isso tive que me virar para Hyunseong e ter certeza que ele estava falando sério. Me deparei com ele sorrindo como um bobo. O mesmo sorriso que ele sempre mostrava quando dizia que me amava ou outras coisas melosas. Fiquei tenso por um momento antes de responder.

– Você não está falando sério, está? – ainda estava ansioso. Parecia que as coisas não iam terminar bem, de um certo ponto de vista.

– Claro que estou – ele esperou por um momento, mas eu não disse nada. Não sabia realmente o que queria responder. – Por favor Jeongmin, só hoje. – dessa vez ele entrelaçou nossos dedos em ambas as mãos e ficou me olhando nos olhos esperando por uma resposta.

– Não sei – foi tudo que consegui dizer enquanto tentava desviar meu olhar para qualquer direção aleatória.

– Por que não? Eu não vou abusar de você nem nada assim, inclusive é mais fácil você fazer isso comigo primeiro – ele riu e eu também comecei a rir, não sei se foi por o que ele disse ou se foi pela sua risada. Respirei fundo e então finalmente respondi.

– Tudo bem, mas só hoje – disse ainda olhando para o chão, acho que sabia que se olhasse para ele, ele estaria com aquele sorriso bobo e eu ia começar a sorrir como um bobo também.

– Sério? Você vai mesmo ficar? – apenas meneei a cabeça dizendo que sim – Então vou preparar alguma coisa para a gente comer, espere aqui.

Ele saiu da sala e foi correndo pra cozinha. Eu deitei no sofá e suspirei profundamente. Não devia ficar aqui, mas meus instintos foram mais fortes que a razão e agora meu ex-namorado estava na cozinha fazendo um jantar para nós e eu ia dormir na casa dele. O pior é que no fundo eu estava animado com a ideia, fazia tanto tempo que não ficávamos juntos. Mas não deveria estar, fui eu que terminei tudo pra começo de conversa. Eu deveria estar tentando esquecer, mas estava aqui, começando tudo outra vez.

No jantar apenas conversamos sobre coisas bobas como videogame ou algum anime enquanto comíamos noddles. E sim, esse era nosso jantar. Hyunseong não sabia cozinhar muitos pratos e eu muito menos. Costumávamos pedir comida ou comer fora quando ainda morávamos juntos. E o jantar era sempre noddles quando não havia dinheiro o suficiente para pedir algo melhor. Depois de comer ficamos no sofá assistindo televisão. Ou melhor, com a televisão ligada enquanto pensávamos em qualquer outra coisa, pois eu mal sabia que programa estava passando.

– Jeongmin – quando me virei ele, que antes estava do outro lado do sofá, já estava do meu lado. Não tentei fugir, pois sabia que era impossível, se eu saísse de perto ele iria para onde eu estava de novo – Posso te fazer uma pergunta?

– Pode – respondi apesar de saber qual pergunta era e de não querer responder.

– Por que você terminou comigo? Você não me ama mais? – era como se já tivesse escutado a frase antes mesmo que ele falasse.

– Não é isso, Hyunseong – eu ainda o amava, e muito, mas obviamente não diria isso a ele. Além de não gostar de dizer esse tipo de coisa, esse era o momento mais inadequado.

– Então por quê?

– Você sabe, alguns problemas – estava tentando evitar detalhes mas provavelmente ficaria sem escolha.

– Não, não sei, não me lembro de nenhum problema.

-Como não se lembra? Meus pais e os seus nos expulsando de casa, todos nossos amigos que desapareceram. Nossos empregos que só conseguimos do outro lado da cidade onde ninguém nos conhecia. Só sair na rua era motivo para todas as pessoas nos encararem como se fôssemos alienígenas. O mundo estava caindo em nossas cabeças, Hyunseong.

– Engraçado – ele começou enquanto colocava o braço em volta da minha cintura – Quando eu tinha o mundo caindo na minha cabeça e tinha você eu estava feliz.

– E agora não está?

– É claro que não, como vou ser feliz sem você?

– Meu deus, como você é meloso – ri, mas no fundo achei fofo. Como ele tinha coragem de falar essas coisas em alto e bom som?

– Você sabe que eu sou meloso, sempre soube – ele também riu e apertou ainda mais o meio abraço enquanto chegava mais perto de mim, se isso era possível. – Jeongmin, vamos ficar juntos de novo, por favor, eu não ligo para nenhum desses “problemas” que você disse.

– Não sei, preciso pensar – a resposta que eu queria dizer era sim, claro. Mas sempre parecia haver mais em jogo que a minha vontade.

– Promete que vai mesmo pensar? – ele estendeu seu dedo mindinho. Rolei os olhos e ri pois como sempre, ele agia como uma criança.

– Prometo – enlacei meu dedo com o dele. Para ele aquilo era quase um pacto de sangue, então ia ter mesmo que pensar sobre.

Quando fomos dormir – na mesma cama já que naquele apartamento tinha apenas uma cama de casal – só conseguia pensar na conversa de horas atrás. Só havia terminado meu namoro com Hyunseong por pensar que era o melhor para os dois, achei que podíamos ser felizes separados, com outra pessoa. Mas pelo jeito não era bem assim que as coisas estavam acontecendo. Nem para mim, nem para ele. Quando começamos a namorar há um ano atrás, conseguimos esconder por um tempo, mas logo meus pais descobriram e começaram a contar para todas as pessoas que conheciam e para as que não conheciam – incluindo os pais de Hyunseong – sobre como seu filho mais novo era uma vergonha, um pecador, e outras outras coisas que eu já nem me lembro mais. Além de me expulsarem de casa, ainda deram dinheiro suficiente para comprarmos um apartamento bem longe deles, cada família deu uma parte. E assim começamos a morar juntos. Era difícil, pois basicamente éramos duas crianças obrigadas a agir como adultos. No começo tudo isso de trabalho, compras, despesas, contas, contas, contas e mais contas, era muito cansativo e complicado, mas com o tempo nos acostumamos. Começou a ser até divertido, Hyunseong sempre falava que éramos casados e até insistiu em comprar alianças. Mas ainda havia aquele sentimento de culpa, não sei exatamente de que, não estávamos fazendo nada errado, mas parece que todas as pessoas do mundo queriam que a gente pensasse que estava. Foi por isso que decidi terminar tudo e pedir para voltar para a casa dos meus pais. Pensando melhor agora, foi um motivo bem estúpido. Nunca liguei para o que pensavam de mim, mas isso é diferente, a pressão é no mínimo três vezes maior. Imaginei se Hyunseong sentia essa pressão do mesmo jeito, ou se era apenas coisa da minha cabeça.

– Hyunseong – sussurrei – Ainda está acordado?

– Sim, eu acho – então ele se virou pra mim, parecia já meio sonolento.

– Você estava quase dormindo, certo? Desculpe.

– Não, tudo bem – ele sorriu para mim, as vezes achava que ele sorria toda vez que me olhava – O que foi?

– Você realmente não liga pra nada daquilo? Não te incomoda as pessoas sussurrando o tempo todo sobre você?

– Na verdade incomoda um pouco, mas ficar longe de você é muito pior – lá estava ele sendo meloso de novo – Sabe, o tempo que estamos separados foi o pior mês da minha vida, acho que o melhor dia desde a última vez que te vi foi hoje – ele sorriu de novo. Não sei como não me enjoei desse monte de coisas que ele fala ainda. Até gostava na verdade.

– Meu mês também foi horrível – não estava mentindo, foi um inferno. Além de tudo ainda tive que aguentar meus pais tentando me arrumar milhões de namoradas.

– Você sentiu minha falta? – óbvio, a cada minuto que passava eu desejava estar perto de Hyunseong. Fazendo qualquer coisa estúpida que noa viesse a cabeça no dia, conversando com ele, ou o beijando, ou simplesmente estando perto, sentia que qualquer coisa era suficiente. Mas haviam palavras melhores para externar esses pensamentos.

– Claro que senti – cheguei ainda mais perto dele na cama. Geralmente o contrário acontecia, mas agora só queria o abraçar, dormir e acordar como se o último mês não tivesse existido.

– Eu também senti a sua, muito, você nem imagina o quanto – quase como se tivesse escutado meus pensamentos ele me abraçou e deitou sua cabeça no meu peito. – Eu te amo.

– Eu também te amo – o abracei de volta e fiquei alisando seu cabelo. Sempre adorei ficar com Hyunseong deitado, até parecia que ele era mais baixo que eu as vezes. Ficamos naquela posição por um tempo, sem falar nada, apenas sentindo a presença um do outro. – Então Hyunseong, estamos juntos nessa? – ele se moveu de onde estava e me olhou com o sorriso mais fofo que se pode imaginar. Sorri de volta, então ele me abraçou mais forte.

– É claro, sempre juntos.