Drabble (Original) – Táxi

As luzes da cidade a noite iluminavam meu trajeto, mais que a luz da lua e das estrelas, que cada vez estavam mais desvanecidas sobre o céu escuro. Toda vez que as olhava, fracas, mas ainda brilhando, sentia meu coração se apagar no mesmo ritmo enquanto o brilho daqueles sentimentos tomavam conta de todo o meu corpo.

Quando a motorista do taxi que me levava perguntou pra onde íamos, não consegui responder. Apenas disse para seguir a estrada e ir para longe. Não tinha um destino, só queria me distrair de minha própria mente.

Todos dizem que o primeiro amor é um desastre mágico. Nunca acreditei até que acontecesse comigo. Procurei algum tipo de sentimento forte em vários garotos, até conseguia no começo, mas logo desaparecia junto com todo o meu interesse. Não percebi logo que meu interesse era pelas garotas, mas quando me dei conta, já estava completamente apaixonada.

Nicole apareceu na minha vida de repente, como uma boa amiga. Ela era filha de um dos acionistas da minha empresa. Foi uma das pessoas que fui obrigada a conhecer em mais um coquetel. A primeira coisa que reparei foi nos olhos pretos e brilhantes, que expressavam doçura. Os cabelos também pretos, lisos e curtos com uma franja e a pele pálida. Tudo isso combinado com uma voz doce faziam-na parecer pura e inocente. Mal sabia eu que naquela noite sairia dali com um número de telefone e uma promessa de uma mensagem no dia seguinte.

A promessa foi cumprida, muitas outras conversas e inevitáveis encontros aconteceram depois disso. O que também foi inevitável foram os sentimentos que cresceram a partir dai. Nunca havia sentido nada parecido por ninguém, dei toda minha confiança a ela em pouco tempo. Sentia que era a pessoa mais feliz do mundo ao seu lado, sentia que ela me entendia de forma que ninguém jamais entendeu, tudo nela me deixava em um transe deslumbrante. Não demorou muito para estar perdidamente apaixonada.

Seus lábios eram doces assim como eu imaginava, foi o que percebi na primeira vez que nos beijamos. Nunca me cansaria de tocá-la e sentir seus toques na minha pele. Estava muito feliz de ter Nicole comigo, por mais que ela não quisesse dar um nome a relação que tínhamos. Eu devia ter encarado isso como o primeiro sinal do que viria a acontecer.

Fui tirada dos meus devaneios pela motorista do táxi que parou no posto de gasolina para abastecer e me perguntou se eu queria algo da loja de conveniência. Respondi que sim, precisava muito de uma bebida naquele momento.

A caixa da loja estranhou minhas lágrimas, meus olhos avermelhados e meu rosto inchado, me perguntou se estava tudo bem, com um sorriso triste lhe disse que ela não precisava se preocupar e caminhei de volta para o carro. Foi a primeira vez na noite que senti a dor que o salto causava nos meus pés e o desconforto que aquela roupa social provocava em todo meu corpo. Apenas tirei os sapatos quando me sentei antes de prosseguir minha viagem sem destino.

Olhei para meu celular apenas para ver uma notificação “Senhorita Raquel, precisamos marcar uma reunião amanhã, os estoques…” não me preocupei em abrir a mensagem para ler o conteúdo completo dela. A última coisa que queria naquele momento era me preocupar com trabalho.

Assim que o táxi voltou ao seu curso as memórias voltavam a me invadir, agora as mais recentes, de algo que acontecera horas antes.

Nicole nunca me visitava no trabalho, por isso estranhei sua presença ali no meu escritório. Ela me disse que precisava conversar e me contava alegremente sobre o casamento que seu pai havia arranjado para ela com um rapaz muito bonito e herdeiro de uma das maiores empresas do país. Depois da palavra “casamento” fiquei tonta e mal consegui processar o resto do que ela falava. Só entendi quando ela começou a falar que devíamos terminar qualquer envolvimento que tínhamos, mas que ela queria continuar sendo minha amiga, pois me considerava muito como tal e que me convidaria para ser madrinha em seu casório.

Dei meu melhor sorriso falso para dizer que estava tudo bem e parabenizá-la, esperei que saísse da minha sala para derramar todas as lágrimas que imploravam para sair. Minha maior felicidade se tornara meu pior tormento.

Fiquei desde aquele momento me perguntando por que ela fez aquilo. Por que alguém que se dizia minha amiga brincaria com meus sentimentos daquela forma ? Fazendo com que eu me apaixonasse e sabendo que jogaria aquele sentimento fora na primeira oportunidade. Pensei muito nisso sem encontrar uma resposta que não fosse a crueldade.

Em poucos meses ela estaria casada e feliz, enquanto meus olhos transbordavam lágrimas e meu peito se enchia com uma dor que nunca pensei que pudesse sentir. Foi ainda mais triste perceber que ela não ligava, que eu fui a idiota o tempo todo e sofreria as consequências disso.

A motorista chamou minha atenção para dizer que estávamos muito longe do ponto inicial, me disse que se continuássemos andando, logo sairíamos da cidade. Era hora de voltar, lhe dei o endereço do meu apartamento e pedi que dirigisse para lá. Infelizmente não podia fugir de tudo e ficar naquele táxi para sempre.

Não importa o quanto eu andasse pela cidade me afundando em meus sentimentos, a realidade ainda estava lá, eu precisaria enfrentá-la no dia seguinte e fingir que as feridas não existiam dentro de mim.

Precisava manter a esperança de que elas se cicatrizariam sem deixar um grande estrago na minha alma.

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