One Shot – I’d Come For You

Estávamos ali, como sempre, conversando e rindo de qualquer coisa inútil que nos vinha à mente enquanto qualquer filme desinteressante passava na TV sem que estivéssemos prestando atenção. Era assim que aproveitávamos basicamente todas as noites dos fins de semana. Juntos, e não fazendo nada que pudesse ter utilidade, apenas aproveitando a companhia um do outro.

                Eu e meu melhor amigo, Lee Jeongmin, éramos inseparáveis, passávamos boa parte de nosso tempo juntos, e quando não, conversávamos por mensagem. Após cinco anos isso ainda não havia se tornado cansativo. Pra mim, Jeongmin era como oxigênio, não conseguia raciocinar direito se ficasse muito tempo longe dele ou sem ao menos ter contato com ele. Amava cada fio de seus cabelos tingidos e geralmente desarrumados, cada traço delicado de seu rosto. Amava sua risada, descompassada e incontrolada, e o jeito como seus olhos se fechavam quando ria. A maneira como ele sempre animava qualquer ambiente, não importando o quão tenso estava, era praticamente impossível se sentir mal com ele por perto. Eu basicamente amava tudo que se remetia a ele. Tanto, que era até difícil para mim sentir ciúmes quando ele estava com sua namorada YoonJi, as vezes me sentia mal olhando mas isso logo passava quando via o sorriso estampado em eu rosto quando ela estava em sua presença. A única coisa que eu queria era o ver feliz, apenas isso. A felicidade dele me deixava feliz também.

                – Hey, Seongie – Jeongmin disse me tirando de meus devaneios.

                – O que você quer?

                – Por que você acha que eu quero algo?

                – Por que você só me chama de Seongie quando vai pedir algo, fale logo.

                – Nossa, é isso que você pensa de mim né – ele fez bico e eu apenas lancei um olhar de repreensão – Ok, é que eu queria pedir para você me ajudar a estudar pra prova de recuperação de inglês.

                – Sabia. Mas eu sou tão ruim em inglês quanto você, então acho que você pediu para pessoa errada.

                – Mas você sempre tira notas altas.

                – Isso é porque eu estudo antes das provas Jeongmin, você devia tentar um dia.

                – É isso que eu estou tentando fazer agora, me ajude, por favor – ele disse fazendo uma tentativa totalmente falha de aegyo.

                – Ta, eu ajudo, só pare de fazer isso, me assusta um pouco sabe. – ele deu um soco no meu braço e eu apenas ri.

                – Olha, eu sou muito fofo ok?

                – Claro, às vezes fico até impressionado com o quanto.

                – YoonJi diz que eu sou fofo.

                – Ela é sua namorada, ela tem praticamente a obrigação de puxar seu saco, não acredite em tudo que ela diz. – Jeongmin cruzou os braços e se virou fazendo bico de novo – Minnie… não fique bravo comigo – puxei seu braço esquerdo e fiquei o balançando até ele se virar e sorrir em minha direção, sorri também – Então amanha depois da aula a gente fica até mais tarde estudando ok? Vou indo agora – me levantei do sofá e andei me dirigindo à porta.

                – Hyunseong, espere – disse se levantando do sofá e vindo em minha direção – Se despeça de mim direito – ele colocou seus braços em volta da minha cintura e me abraçou. Fiquei um pouco surpreso com a ação, ele não era de fazer isso, mas coloquei minhas mãos em volta do seu pescoço e retribui o abraço. Estava feliz de ter ele tão perto, já que isso raramente acontecia. Mas não podia me deixar levar demais por algo estúpido assim.

                – Mais alguma exigência ou posso ir, senhor? – ri enquanto separava o abraço e o olhava nos olhos tentando descobrir se ele parecia diferente ou algo assim. Mas não vi nada.

                – Nenhuma, pode ir – ele riu e se soltou totalmente de mim – Até amanha.

                – Até – sai pela porta e andei em direção à minha casa que ficava apenas a alguns metros dali. Algo me intrigava, Jeongmin estava um pouco estranho desde o dia anterior, parecia carente, e até um pouco triste, nunca o tinha visto desse jeito antes. Fiquei preocupado, mas o conhecendo achei melhor não perguntar nada, ele sempre se negava a contar qualquer coisa que o deixasse mal e às vezes até começava a gritar. Definitivamente era melhor eu fingir que não havia notado nada.
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                Acordei sem nenhum barulho similar ao meu despertador e estranhei. Fui rapidamente olhar a hora em meu celular, que estava na pequena estante ao lado da minha cama. Eram 06:40, eu deveria estar pronto e à caminho da escola há 10 minutos atrás. Levantei apressado e me troquei rapidamente pensando em como não havia escutado o despertador tocar. Isso nunca acontecia. Sempre fui pontual e nunca tive problemas para acordar.

Troquei-me e fiz minha rotina matinal em pouco mais de 5 minutos. Peguei minha mochila, coloquei lá dentro os livros necessários para as aulas de segunda feira e me apressei em sair pela porta da frente. Como imaginei, Jeongmin estava sentado na escada em frente à entrada da minha casa. Ele provavelmente estava ali me esperando desde o horário que costumávamos sair de casa todos os dias.

– Desculpe, acordei um pouco atrasado – disse coçando a parte de trás da cabeça em um gesto quase de culpa.

– O que aconteceu? Você nunca se atrasou, quase entrei lá dentro para ver se você estava vivo.

– Não sei, só não dormi direito noite passada, acho que foi isso – começávamos a caminhar pra longe da minha casa.

– Por quê?  – ele me fitava de um jeito preocupado. O que parecia mais estranho ainda considerando que ele aparentemente nunca se preocupava com nada.

– Nada de mais, só insônia – eu não diria a ele que passei a noite em claro pensando no que poderia haver de errado pra deixa-lo mal.

– Bom, se você diz – ele voltou o olhar para o chão e estava tão concentrado ali que parecia querer contar os passos que dava – Sabe, se precisar conversar ou algo assim, pode falar comigo. – parecia um pouco nervoso enquanto dizia e deu um sorriso tímido ainda encarando o chão.

– Lee Jeongmin agindo como uma pessoa legal, você está doente? – Disse colocando a mão em sua testa, como faria para medir uma febre e ele riu.

– Não, não estou – ele tirou minha mão da sua testa e continuou – Eu sou uma pessoa legal, só que não gosto de falar de coisas sérias sempre, me irrita.

– Entendo – eu queria dizer que ele também podia contar comigo e perguntar o que havia de errado, mas não parecia o momento certo, achei melhor esperar mais um pouco. Mas eu definitivamente descobriria isso logo.

Seguimos o caminho até à escola rindo e conversando sobre coisas totalmente aleatórias. As aulas seguiram da mesma maneira. Eu estava tentando distrair Jeongmin de qualquer coisa que pudesse o estar preocupando. E parecia estar funcionando, mesmo que temporariamente.

No término do horário das aulas, fomos à biblioteca, como marcado no dia anterior. Nos sentamos em uma das mesas e começamos a estudar. Eu tentei ensinar o que fazia pra decorar toda a matéria a ele, e ele parecia bastante focado no que eu dizia. Geralmente ele me ignorava totalmente quando eu falava algo sobre escola, aquilo estava ficando cada vez mais estranho.

Enquanto ele fazia alguns exercícios do livro que ele não tinha feito na aula, eu lia um livro que havia deixado a leitura na metade antes da semana de provas. Então o fitei, ele parecia seriamente concentrado, e não muito agressivo, acho que se eu perguntasse algo ele não começaria a gritar como um louco dentro da biblioteca.

– Jeongmin.

– Fale – ele disse sem tirar os olhos de seu caderno.

– O que está acontecendo? Você não parece bem ultimamente. – quando terminei de dizer ele me fitou com um olhar indecifrável.

– Não está acontecendo nada – então voltou a atenção ao seu caderno.

– Jeongmin, não tente esconder, eu te conheço bem o suficiente pra saber quando você está estranho, e você está agora.

– É tão óbvio assim? – ele deu um sorriso de canto em minha direção.

– Talvez – sorri também, era praticamente impossível não o fazer com qualquer tipo de sorriso vindo dele – Vai me dizer o que é?

– Tudo bem, eu digo – ele largou a caneta e apoiou os braços sobre a mesa enquanto me fitava sério – É que… – sua frase logo foi interrompida.

– Hyunseong, Jeongmin, acho que a primeira vez que vejo vocês juntos por aqui – DongHyun disse já se sentando em uma cadeira do meu lado.

– Muito engraçado hyung. Vim aqui porque fiquei de recuperação em inglês e o Hyunseong hyung está me ajudando com a matéria – nunca entendi o porque dele me chamar de hyung apenas quando não estávamos sozinhos.

– Hyunseong-ah, acho que só de trazer ele aqui é um grande avanço – apenas ri e voltei minha atenção pro livro que estava lendo anteriormente.

– Hyungs, vou pegar um livro antigo do segundo ano pra ver alguns exercícios, já volto – Jeongmin disse e saiu em direção às prateleiras ao lado da mesa que estávamos. Ele parecia tão incrível concentrado daquele jeito que não pude deixar de olhar.

– Hyunseong – ouvi uma voz chamando, mas não dei muita atenção, estava muito distraído – HYUNSEONG – levei um susto com DongHyun gritando meu nome e batendo na mesa.

– Hyung, que susto. Não fale assim tão alto na biblioteca – sussurrei e fiz um gesto mostrando a ele que deveria fazer silêncio.

– Você começou a gostar do Jeongmin agora ou eu que não reparei antes?

– O QUE? – me assustei mais ainda que antes com a pergunta. Comecei a ficar nervoso – Do que você está falando? – disse tentando parecer calmo.

– Achei que não pudesse falar nesse tom na biblioteca – ele riu – Mas então, acho que você devia falar com ele.

– Hyung, você está ficando louco – ele me fitou sério, como se soubesse o que se passava pela minha cabeça – Ele é hétero, hyung, você sabe que ele tem namorada.

– Então você admite?

– Eu não disse nada… ah, esquece – resolvi desistir de tentar reverter a situação já que ele não tinha mais reversão.

– Sei de tudo isso, mas você vai ficar escondendo isso para sempre?

– É melhor, não quero perder a amizade dele.

– Bom, se você prefere assim – então ele parou de repente e começou a falar sobre qualquer assunto quando viu Jeongmin voltando para a mesa. Ele pareceu não desconfiar que estávamos falando dele há alguns segundos atrás.

Resolvi ignorar o fato de que havia dito aquilo para DongHyun. Não era algo pra me preocupar agora e tinha quase certeza que ele não diria nada, mesmo não confiando totalmente.
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Depois de estudarmos na biblioteca, eu e Jeongmin fomos até uma lanchonete perto das nossas casas tendo em vista que na última semana do bimestre as aulas eram apenas pela manha. Escolhemos uma mesa ao fundo como sempre fazíamos quando íamos até lá.

– Então, sobre o que você ia me falar na biblioteca… – comecei falando até ele me interromper.

– Você quer mesmo saber? Não é nada de muito importante – dizia indiferente, talvez tentando me convencer que aquilo não o incomodava.

– Claro que é importante, qualquer coisa que te deixe mal é importante.

– Tudo bem – soltou um pequeno riso antes de continuar sério – É a YoonJi, eu tenho certeza que ela está me traindo.

 – A YoonJi? Não acredito que ela faria isso.

– Não sei se já te disse, mas só estamos juntos por causa dos nossos pais. – me senti um pouco mal por estar aliviado ouvindo aquilo.

– Nunca disse, você parece gostar dela.

– Claro que eu gosto, muito, mas não desse jeito. Ela sabe disso e eu também sei que ela não gosta de mim assim. Mas isso já foi longe demais.

– Por que não termina com ela então?

– Meus pais, eles me matariam, com certeza, eles já não gostam muito de mim.

– Não fale assim, eles são seus pais, mesmo que não pareça eles gostam de você.

– Gostaria de pensar assim – ele riu enquanto tomava um copo de coca-cola de um jeito dramatizado como se estivesse tomando algo com alto teor alcoólico – Mas não penso, então.

– Você não pode passar sua vida fazendo o que eles querem.

– Concordo. Acho que vou falar com a YoonJi e resolver isso logo, sei que ela vai aceitar sem problemas.

– Então é isso, depois você fala com seus pais, eles podem entender.

– Não acredito que vão entender, mas vou tentar mesmo assim – sorriu em meio a frase – Obrigado Seongie.

– Não precisa agradecer, acho que você não sabe, mas amigos são pra isso – disse segurando sua mão esquerda com minhas duas mãos e rindo.

– Seu idiota, eu sei – riu também, colocou sua mão direita sobre as minhas e ficou me encarando por um tempo. Tempo que pôde ser considerado constrangedor. Então desviei meu olhar e separei nossas mãos.

– Melhor irmos para casa logo – peguei minha mochila e levantei rapidamente querendo acabar com o clima estranho que ficou no ar por alguns segundos.

– Sim, vamos – levantou apressado em me alcançar já que eu estava longe e quase fora da lanchonete.

Durante o caminho ficamos rindo de qualquer coisa dita como de costume. Jeongmin continuou me encarando todas as vezes em que ficávamos em silêncio. Provavelmente ele vira o rubor em minha face quando fazia isso. Tentava desviar o olhar ou começar a falar de algum jogo, ou programa de TV, mas ele continuava.

– Minnie, eu sei que sou muito bonito, mas não precisa ficar me encarando desse jeito – finalmente disse pra ver se ele parava de uma vez.

– Por que você é tão metido? Eu sou bem mais bonito que você.

– Claro que não é. E pare de ficar me olhando assim ou vou ficar mais metido ainda – ele apenas meneou a cabeça e riu. Achava incrível como qualquer clima tenso se dissipava com apenas uma frase dita entre nós.

Nos despedimos quando entrei em minha casa e Jeongmin seguiu para a dele. Tinha o dito pra vir à minha casa assim que resolvesse tudo para estudarmos mais um pouco antes do teste. Ele havia concordado e disse que viria logo.

Fiquei pensando em tudo que havia ocorrido ao longo do dia. Tudo parecia muito estranho. Até pensei em ter um pouco de esperança sobre aquilo, mas logo tirei o pensamento da minha cabeça. Ter esperanças sobre algo impossível ia apenas piorar as coisas.
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Estava jogando videogame por pouco mais de uma hora enquanto esperava Jeongmin. Depois passei mais tempo no computador fazendo qualquer coisa inútil, estava preocupado, muito.

Já passava das 22hrs quando resolvi ligar para ele. Havia passado muito tempo e ele não havia aparecido ainda. Não conseguia evitar a apreensão, então liguei.

Caia sempre na caixa postal. Pensei em onde ele poderia estar, mas achei melhor acabar com a ideia que não era das melhores. Liguei no telefone residencial e ninguém atendeu. Nossos amigos também não imaginavam onde ele podia estar. No fim, peguei meu casaco e sai para a rua, em direção ao único lugar que ele estaria. Sempre ficava nervoso quando o ia buscar nesse tipo de lugar, os odiava. Por isso não demorei a encontrar uma mesa ao fundo do estabelecimento, ocupada apenas por um garoto de cabelos vermelhos e com um chapéu estranho. Me aproximei rapidamente.

– Jeongmin, vamos – disse perto de seu ouvido para que pudesse escutar e ele apenas me encarou e se levantou em direção ao balcão. Me dirigi a porta da frente do bar porque não queria ficar muito tempo naquele lugar cheio de velhos inconscientes de seus atos. Logo Jeongmin se aproximou de mim e fomos caminhando em silêncio até sua casa.

Chegamos e nos sentamos em uma mesa posicionada na cozinha. Eu tinha que falar algo, mas não sabia quais palavras usar e por onde começar. Não podia dar uma bronca nele de qualquer jeito e parecendo nervoso, ou não adiantaria nada. Ele ficava apenas me encarando, sem dizer nenhuma palavra, provavelmente já tendo em mente que eu ia começar a reclamar, eu sempre fazia isso. Resolvi começar logo antes que aquele silêncio desconfortável durasse por muito mais tempo.

– Por que você foi pra lá de novo? E sem me avisar? Eu fiquei te esperando sabia? – tentei transparecer toda a confiança que eu não tinha. Era sempre difícil ter que falar desse jeito com ele.

– Eu estou cansado, queria ficar um pouco sozinho.

– E precisava ir para lá? Ficar bebendo? Você sabe que não é muito tolerante a álcool, além de ser perigoso voltar sozinho pra casa, fica sempre mal depois e… – fui logo interrompido por gritos.

– Não aja como se você se importasse, eu sei que não, ninguém se importa de qualquer jeito – ele gritou enquanto sua voz decaia de tom em meio a frase até atingir um tom quase inaudível.

– Claro que eu me importo, eu fiquei por horas te esperando e preocupado com você, estava quase indo na polícia registrar seu desaparecimento. Ai lembrei de onde você estaria e fui te buscar mesmo odiando aquele lugar e você ainda diz que não me importo?

– Isso é porque você é chato e não quer ver ninguém fazendo coisas que não sejam chatas. Você não entende, somos diferentes demais pra isso, nem sei porque somos amigos ainda.

– Ah, não sabe… Tudo bem, já que eu sou tão chato assim vou te poupar de falar comigo – sai rápido do apartamento batendo a porta de maneira a fazer um grande estrondo, não ia aguentar ficar muito tempo ali segurando as lágrimas que insistiam em cair.

Andei apressado até minha casa e por sorte meus pais já estavam dormindo. Entrei no meu quarto e finalmente me permiti chorar com provavelmente todos os litros que água que existiam em meu corpo. Aquelas palavras haviam doído mais que todas as dores que já havia sentido na minha vida toda. E doía mais ainda pensar que teria que cumprir o que tinha dito, ter que ficar longe de Jeongmin, me sentia horrível só de imaginar como seria. Mas eu não podia simplesmente voltar atrás. Jeongmin sempre achava que tudo ia ser do jeito dele, dessa vez não. Já que ele achava que ninguém se importava era melhor deixar ele ver como é estar sozinho de verdade.
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Não consegui dormir por mais de duas horas naquela noite. As cinco da manha já estava acordado me distraindo com qualquer aplicativo do meu celular até chegar a hora de me levantar.  Comecei a me arrumar as 06:00, queria sair mais cedo de casa porque não sabia se Jeongmin estaria me esperando na hora certa como sempre, ele era imprevisível, era possível ele simplesmente agir como se não tivesse feito nada.

Quando cheguei na sala me sentei numa carteira do lado oposto da que costumava me sentar, estava realmente disposto a fazer aquilo. Se era o que ele queria, era o que ia ter, por mais que me doesse mais a cada vez que eu pensava sobre.

Enquanto a aula passava, não podia deixar de olhar em direção a ele, estava sentado na carteira de sempre, e toda vez que olhava ele já estava me encarando. Com um olhar que eu não pude dizer se era raiva, tristeza ou talvez cansaço. E eu sabia que era por minha causa. Apenas não entendia o porquê disso depois das palavras que proferiu na noite anterior. Mesmo que estivesse sobre efeito do álcool, estava sóbrio o suficiente para saber o que estava dizendo.

Aquilo era estranho, nunca tínhamos brigado antes. Desde que nos conhecemos não passamos sequer um dia sem nos falar. Me sentia no mínimo vazio, de repente parecia que ele era a única pessoa do mundo com quem eu podia rir e falar idiotices. Pensando bem, era realmente isso, Jeongmin foi a minha felicidade por muito tempo. Mas isso teria que acabar agora de qualquer maneira.

Três dias se passaram daquele jeito. Começava a voltar atrás na minha decisão, mas não parecia a melhor opção, então só continuei, não houve nenhum tipo de iniciativa de nenhuma das partes.

Depois da escola fui para casa, e como não tinha nenhum dever de casa apenas fiquei deitado na minha cama lendo um livro e tentando focar minha mente nele, o que não parecia funcionar. Então ouvi uma batida na porta, provavelmente era minha mãe, logo fui abrir. Mal pude pensar e senti um corpo se chocando contra mim e me jogando para o lado da parede do outro lado do quarto enquanto me abraçava pela cintura.

– Hyunseong, me desculpe, por favor, por favor. Eu não queria ter dito aquilo, eu… – Jeongmin dizia tão rápido que nem conseguia respirar direito até que o interrompi.

– Espera, como você entrou aqui em primeiro lugar? – o tirei um pouco de perto de mim apesar de querer o abraçar com ainda mais força com que ele tinha feito no último segundo.

– Você sabe que sua mãe sempre abre pra mim. Mas esse não é o ponto, eu vim aqui te pedir desculpas, não consigo ficar sem falar com você, me desculpa? – ele parecia estar quase chorando enquanto dizia aquilo, então não aguentei e o abracei.

– Tudo bem, eu também não ia conseguir ficar muito mais tempo longe de você – passava a mão entre os fios de seu cabelo enquanto ele repousava sua cabeça no meu ombro.

– Eu sou um idiota, te tratei mal mesmo com você se preocupando comigo.

– Você é um idiota mesmo – ri e ele bateu de leve no meu braço e riu também – mas eu já estou acostumado com isso.

– Prometo que vou ser menos idiota então, e só vou tentar beber de novo se estiver em casa e com supervisão, ok?

– Ainda não é o ideal, mas já é um avanço. – então ele tirou a cabeça do meu ombro e me encostou na parede mantendo nossos corpos com pouquíssima distância.

– Senti tanto sua falta… – ele murmurou e foi chegando mais perto até acabar com a distância que havia entre nós selando nossos lábios. Retribui o beijo sem pensar duas vezes, não sabia muito bem o motivo daquilo, mas achei melhor aproveitar. Íamos aprofundando aquilo cada vez mais. O beijo parecia um tanto necessitado, como se precisássemos fazer isso há muito tempo, como se os anos de desejo reprimido estivessem sendo depositados ali. E por incrível que pareça não apenas da minha parte. Aquela sensação foi a melhor que já senti, não queria me separar de Jeongmin nunca mais. Colocava meus braços em volta do seu pescoço enquanto ele me pressionava na parede. Comecei a achar que aquilo estava indo longe demais até que ele refez a distância. Ficamos parados encarando um ao outro sem nenhuma expressão no rosto enquanto recobrávamos o ar.

– Acho melhor esquecermos isso – disse enquanto saia de perto dele em direção a qualquer lugar em que eu pudesse pensar claramente.

– Não vamos esquecer nada – me seguiu e agarrou meu pulso com intenção de que eu me virasse de volta pra ele – Se esquecermos, não vou poder fazer isso de novo – então ele me beijou novamente, dessa vez apenas um selinho leve. Após isso, sorriu para mim e eu não pude deixar de sorrir também.

– Você sabe que isso é errado né?

– Não vejo nada de errado em querer ficar perto da única pessoa que eu sei que nunca vai me abandonar, e que vai me apoiar sempre, por mais idiota que eu seja.

– Jeongmin, não é disso que eu to falando, é que…

– Eu sei, que nós dois somos meninos blá blá blá, acha que não percebi isso? Só que achei melhor ignorar porque já tava cansando disso. Você se importa?

– Não, eu só não achei que você pensasse assim.

– Você gosta de mim não gosta? – sorriu enquanto me abraçava de novo. Fiquei imaginando se fui tão óbvio esse tempo todo.

– Claro que gosto, você sabe que sim.

– Também gosto muito de você Seongie – nos beijamos rapidamente mais uma vez. Parecia que íamos ficar nos beijando após cada frase dita. – me promete uma coisa?

– O que?

– Que você nunca vai me deixar, que vai estar sempre aqui.

– Prometo, vou sempre estar, como sempre estive – ficamos ali por um tempo num silêncio confortável.

Estava feliz, não só porque tinha Jeongmin, mas porque poderia ter certeza que eu sempre estaria ali pra ele quando ele precisasse. Que sempre protegeria ele de qualquer coisa e que ele nunca estaria sozinho.
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One Shot – Mais Ninguém

Escrevi essa fic especialmente por causa do aniversário do meu bebezinho, Hyunseong. Queria desejar tudo de bom pro meu anjo, e muita, muita, muita felicidade  

XXX

Faltavam três dias para o aniversário de Hyunseong, e ele estava me ignorando pelas duas últimas semanas. Talvez fosse minha culpa por tê-lo ignorado primeiro, mas eu sempre ignorava e ele insistia em me procurar assim mesmo. Já achei esse comportamento irritante, até briguei com ele por causa disso, mas o que mais queria agora era que ele viesse correndo me abraçar dizendo que não ia me largar não importa o que acontecesse. Parece que dessa vez, o que aconteceu foi demais para ele continuar querendo ficar perto de mim.

Há três semanas estávamos sozinhos dentro de uma sala de ensaios. Deveríamos estar ensaiando, mas estávamos apenas jogando conversa fora. No meio dessas conversas chegamos a falar de amor, todas essas idiotices que se fala as duas da manha com um pouco de sono. Sempre achei que falava demais quando estava perto de Hyunseong, ele parecia ter um encanto que fazia com que eu falasse tudo que estivesse pensando, meus sentimentos, esperanças, medos, coisas que eu não falava para ninguém, com ele se tornavam naturais. Tão natural que eu mal percebi que estávamos perto demais um do outro, só me dei conta quando nossos lábios se tocaram. A coisa sensata a fazer seria se afastar, afinal, não é uma das coisas mais morais e politicamente corretas beijar seu melhor amigo numa sala escura à noite, mas a única coisa que se passou pela minha cabeça no momento foi “Aproveite, você pode não ter outra chance como essa” e simplesmente me parecia a coisa certa a se fazer me entregar àquele beijo. Hyunseong pareceu pensar o mesmo, pois logo ansiava por mais contato. Ficamos por um tempo ali nos beijando, apenas parando para respirar e voltando ao beijo. Retornamos à nossa casa sem conversar sobre o que aconteceu.

No outro dia, acordei me sentindo um bêbado que tinha feito uma besteira enorme sob efeito do álcool, com a única diferença de que nenhuma substância era responsável por aquilo, apenas um sentimento mais forte que eu que havia me controlado. Parando para pensar, aquilo soou um enorme absurdo em minha mente, beijar Hyunseong? Por quê? Desde quando eu gostava de beijar garotos? Nenhuma dessas perguntas pareceram importantes na hora, mas agora precisava encontrar uma resposta.

Consegui encontra-la, a resposta era que estava me sentindo carente por muito tempo, e por ser próximo de Hyunseong esse carinho se transformou em desejo por alguns minutos, apenas uma coisa sem importância, e foi isso que disse a ele quando conversamos sobre o assunto. Ele sorriu e disse que eu estava certo, para esquecermos tudo, mas enquanto sorria, seus olhos pareciam tristes. Deve ter doído um pouco nele terminar o que nem havia começado, e por incrível que pareça, também doeu em mim.

Parecíamos quase estranhos depois disso, nossas conversas se resumiam a comentar algo que estava passando na TV, toda a proximidade que construímos ao longo dos anos pareceu desmoronar em minutos e aquilo me matava por dentro. Sentia tanta falta dele que indaguei se aqueles beijos realmente foram um erro, ou se foram algo que eu negava sentir. Também me lembrei que não perguntei a Hyunseong o que ele achava daquilo, estava tão desesperado para negar tudo que me esqueci completamente dos sentimentos dele. Com certeza fui um amigo horrível, não me admirava que ele me ignorasse.

Mas com essa data chegando, não pude me esquecer de uma promessa que fiz quando nos conhecemos. Uma semana antes de seu aniversário, o perguntei se ele estava animado, e ele me respondeu que não ligava porque não era nada especial. Para mim, aniversário é uma data incrível, é o seu dia, para se lembrar porque estava ali por mais um ano, para as pessoas próximas se lembrarem porque se tornaram próximas, a melhor data de todas. Naquele dia, prometi à Hyunseong que a partir dali, faria com que seu aniversário fosse especial todos os anos. Me esforçava sempre para fazer festas e comprar presentes, qualquer coisa que me deixasse ver aquele lindo sorriso e olhos radiantes de felicidade. Esse ano parecia que seria diferente,  mas não queria deixar algo tão bobo estragar uma coisa de dimensões extremamente maiores. Então, faria o de sempre, mesmo que as coisas não fossem mais as mesmas.

X

Segunda-feira, faltavam menos de vinte e quatro horas para o grande dia, fui ao mercado e comprei algumas coisas para comer, os pratos favoritos de Hyunseong. Sem me esquecer de um bolo de frutas da melhor confeitaria da cidade, nunca fui bom em cozinhar, preferia que alguém fizesse o bolo por mim. O presente dessa vez achei melhor não comprar, queria começar a fazer depois de hoje, o resultado da conversa com certeza iria interferir no produto final.

Cheguei em casa e Hyunseong estava dentro de seu quarto, em silêncio. Já era noite, comecei a arrumar tudo o que tinha comprado na sala, não havia mais ninguém em casa, paguei um jantar para que todos saíssem e nos deixassem em paz por um tempo.

As onze e cinquenta e nove, estava na porta do quarto, contando os segundos para entrar. O nervosismo tomava conta de mim, mas desistir agora não era uma opção, eu tinha que fazer isso. O relógio marcou meia noite, respirei fundo, abri a porta, entrei e logo em seguida a fechei atrás de mim. Hyunseong estava deitado, jogando em seu PSP, quando entrei ele parou de jogar para olhar para a porta, parecia surpreso de me ver ali, provavelmente nem notou que já era seu aniversário. Fui até sua cama, me joguei em cima dele e o abracei.

– Feliz aniversário, Hyunseong – ele começou a rir, não sei qual é a graça da situação, mas ele sempre ri de tudo, independente de ter graça ou não.

– Obrigado Jeongminnie, não sabia que já era tão tarde.

– Vamos para a sala, sua festa está lá – ele me olhou chocado.

– Festa??

– Sim, vamos? – ele concordou e fomos até o outro cômodo – Meu objetivo era fazer uma festa surpresa e chamar algumas pessoas, mas achei que precisávamos de um tempo sozinhos, se não se importa.

– Fico feliz que quer ficar comigo, e obrigado por preparar tudo isso, eu realmente não esperava – ele sorriu para mim, me senti dez vezes melhor só de ver aquele sorriso de novo.

– Não se lembra que prometi passar todos seus aniversários com você?

– Claro que me lembro – continuou sorrindo e então sentou no sofá da sala, me sentei ao seu lado.

– Hyunseong, sei que as coisas andam estranhas entre a gente nas últimas semanas, eu sinto muito a sua falta, não tive coragem de falar isso antes, mas não poderia passar de hoje, não dava mais para adiar.

– Também sinto muito a sua falta, você não sabe o quanto – se aproximou e segurou minha mão. Me senti mais seguro em ver que ele não parecia bravo comigo ou nada assim.

– Olha, preciso te dizer uma coisa.

– Pode falar, Jeongminnie – ele continuava segurando minha mão, fazendo um leve carinho nela e olhava diretamente em meus olhos. O nervosismo que eu estava sentindo antes tinha desaparecido completamente, Hyunseong sempre me fazia ter segurança em falar o que quer que seja, sabia que ele consideraria tudo o que eu falasse, sabia que podia confiar nele.

– Acho que fui um pouco precipitado naquele dia, do beijo sabe, eu não sabia o que pensar, a primeira coisa que me veio na cabeça era que eu estava ficando louco, mas esse tempo que tive para pensar melhor, percebi que o significado daquilo foi outro, que eu só não queria ver. Eu gosto muito de você, Hyunseong, acho que talvez não só como seu melhor amigo – ele me olhava sem nenhuma expressão aparente, comecei a ficar nervoso, ele não sentia o mesmo, sentia? Já me arrependia de ter dito tudo antes que ele quebrasse o silêncio.

– Também preciso te dizer algo – chegou mais perto de mim antes de continuar – Eu te amo, Jeongmin, sempre amei – o que? Como ele falava aquilo com tanta facilidade? O olhava com os olhos arregalados pela surpresa – Sei que parece estranho, mas eu te amo desde sempre, só não podia chegar falando algo assim do nada. No dia que nos beijamos, achei que as coisas finalmente iam mudar, mas você me disse que foi tudo um erro, achei melhor me afastar, pensei que não me queria mais por perto depois daquilo.

– Sempre vou te querer por perto – cheguei mais perto para o abraçar, me sentia tão bem próximo dele, e depois de contar tudo e ouvir sua resposta, era como se um peso enorme fosse tirado das minhas costas. Ficamos ali por um tempo sem falar nada, apenas aproveitando o momento, que pareceu eterno mas quando acabou era como se o eterno não fosse o suficiente.

– Jeongmin… nós estamos juntos agora? Você sabe… juntos – ele falava com uma excitação que beirava o medo, apenas ri, antes de responde-lo.

– Claro, se você quiser podemos ficar juntos.

– Eu quero, quero muito – não pude evitar sorrir de novo antes de capturar seus lábios em um beijo.

Ele parecia surpreso, mas em menos de um segundo nossos movimentos já entravam em sintonia. Esse beijo era tão intenso quanto o último que dividimos, o qual eu não esqueci um detalhe sequer, mas era ainda melhor, não sei se o fato de saber exatamente o que estava fazendo melhorava ou piorava as coisas na minha mente, mas tentei apenas focar no que estava acontecendo ali, tudo parecia um sonho. Fomos interrompidos por várias vibrações ao mesmo tempo, seguido de um celular tocando. Gemi em reprovação e continuei o beijo por um tempo, até Hyunseong nos separar.

– Jeongmin, eu preciso atender, deve ser minha mãe desejando feliz aniversário.

– Tudo bem, tudo bem – não queria ser interrompido, mas também não queria que a mãe de Hyunseong ficasse se perguntando por que ele não atendeu o telefone.

Ele ficou falando no telefone por um tempo, quando desligou, fomos comer e ele estava respondendo algumas mensagens, pelo jeito, muitas mensagens.

– Não sabia que você era tão popular – ele riu sem tirar os olhos do celular.

– Não sou popular.

– Claro que é, olhe quantas mensagens você está recebendo.

– Já está com saudades de me beijar, é isso?

– Na verdade é isso sim – ele não disse mais nada, apenas veio em minha direção e me beijou. Nos deitamos no sofá juntos e ficamos ali, o celular ainda vibrando em cima da mesa, indicando que mensagens ainda chegavam – Não vai responder? – disse ao separar nossas bocas.

– Faço isso depois, não posso te deixar aqui com vontades, Jeongminnie – apenas ri e lhe dei um selinho, que ele já ansiava para responder, mas o parei antes.

– Pode ir lá, eu espero.

– Mesmo? Não vai ficar bravo comigo?

– Claro que não, Hyunseong – ele me deu um último beijo antes de se levantar e ir em direção ao celular.

Poucos minutos depois, nossos colegas de apartamento chegaram todos cantando (gritando) feliz aniversário para Hyunseong. Ficamos todos conversando por um tempo, até decidirmos que já era hora de dormir. Tive que arrumar tudo já que eu havia bagunçado, então fiquei para trás, já calculando ao menos mais meia hora acordado. Enquanto começava a levar as coisas para a cozinha, senti dois braços se entrelaçando em minha cintura por trás e não pude deixar de sorrir.

– Precisa de ajuda com isso?

– Não preciso, hoje é seu aniversário, pode descansar – Hyunseong fingiu que não me escutou e me soltou para pegar os pratos que faltavam e levar para a cozinha. Terminamos tudo e ainda ficamos um tempo na cozinha conversando, principalmente sobre o que havia acontecido nas semanas em que passamos separados, era impressionante quanta fofoca se acumulava em tão pouco tempo.

– Jeongmin, você realmente cumpriu sua promessa, não conseguiria pensar em um aniversário melhor que esse.

– Mas o dia ainda nem começou, vai ficar ainda melhor – sorrimos um para o outro antes de começar outro beijo.

Talvez o aniversário fosse mesmo uma data especial e mágica, mas percebi que perto de Hyunseong todas as datas eram especiais e mágicas, todos os dias, todas as horas, todos os segundos, absolutamente tudo. Como não ser assim se eu estava perto da pessoa mais especial da minha vida?