One shot – Stay The Night

Esse apartamento carregava tantas lembranças que eu mal conseguia decidir qual delas fazia com que eu me sentisse pior. Sentia falta de viver aqui, mesmo achando que saí porque era o melhor para ambos. Até o cheiro me parecia familiar, o lugar que eu estava sentado no sofá e que já ocupei tantas vezes, e até mesmo o barulho estranho que o aquecedor fazia as vezes. Era como se estivesse anos longe daqui mesmo que fosse apenas por um mês. Resolvi simplesmente tirar esses pensamentos da minha cabeça e me levantei.

– Hyunseong, preciso ir embora – quando ele me convidou pra vir até aqui pensei que aguentaria mais tempo.

– Não, espere, você vai sair nessa chuva? – ele segurou meu pulso antes que eu pudesse dar ao menos um passo. Olhei para ele por um segundo, depois olhei pra janela. Mal tinha reparado que a chuva estava tão forte.

– Tudo bem, não sou feito de açúcar, consigo atravessar uma chuvinha dessas – forcei uma risada enquanto me soltava de sua mão e comecei a andar para a porta. De repente senti os braços dele me cercando.

– Jeongmin… Fique, por favor, pelo menos até a chuva passar – ele disse naquele tom que soava como uma criança de cinco anos pedindo uma bala e me abraçava por trás como se por aquele momento houvesse esquecido que já tínhamos terminado.

– Se eu esperar vai ser tarde para ir para casa – estava amando ficar ali, por mais que nunca admitisse isso. Acho que esse era o principal motivo para querer sair.

– Então por que você não dorme aqui? – quando ouvi isso tive que me virar para Hyunseong e ter certeza que ele estava falando sério. Me deparei com ele sorrindo como um bobo. O mesmo sorriso que ele sempre mostrava quando dizia que me amava ou outras coisas melosas. Fiquei tenso por um momento antes de responder.

– Você não está falando sério, está? – ainda estava ansioso. Parecia que as coisas não iam terminar bem, de um certo ponto de vista.

– Claro que estou – ele esperou por um momento, mas eu não disse nada. Não sabia realmente o que queria responder. – Por favor Jeongmin, só hoje. – dessa vez ele entrelaçou nossos dedos em ambas as mãos e ficou me olhando nos olhos esperando por uma resposta.

– Não sei – foi tudo que consegui dizer enquanto tentava desviar meu olhar para qualquer direção aleatória.

– Por que não? Eu não vou abusar de você nem nada assim, inclusive é mais fácil você fazer isso comigo primeiro – ele riu e eu também comecei a rir, não sei se foi por o que ele disse ou se foi pela sua risada. Respirei fundo e então finalmente respondi.

– Tudo bem, mas só hoje – disse ainda olhando para o chão, acho que sabia que se olhasse para ele, ele estaria com aquele sorriso bobo e eu ia começar a sorrir como um bobo também.

– Sério? Você vai mesmo ficar? – apenas meneei a cabeça dizendo que sim – Então vou preparar alguma coisa para a gente comer, espere aqui.

Ele saiu da sala e foi correndo pra cozinha. Eu deitei no sofá e suspirei profundamente. Não devia ficar aqui, mas meus instintos foram mais fortes que a razão e agora meu ex-namorado estava na cozinha fazendo um jantar para nós e eu ia dormir na casa dele. O pior é que no fundo eu estava animado com a ideia, fazia tanto tempo que não ficávamos juntos. Mas não deveria estar, fui eu que terminei tudo pra começo de conversa. Eu deveria estar tentando esquecer, mas estava aqui, começando tudo outra vez.

No jantar apenas conversamos sobre coisas bobas como videogame ou algum anime enquanto comíamos noddles. E sim, esse era nosso jantar. Hyunseong não sabia cozinhar muitos pratos e eu muito menos. Costumávamos pedir comida ou comer fora quando ainda morávamos juntos. E o jantar era sempre noddles quando não havia dinheiro o suficiente para pedir algo melhor. Depois de comer ficamos no sofá assistindo televisão. Ou melhor, com a televisão ligada enquanto pensávamos em qualquer outra coisa, pois eu mal sabia que programa estava passando.

– Jeongmin – quando me virei ele, que antes estava do outro lado do sofá, já estava do meu lado. Não tentei fugir, pois sabia que era impossível, se eu saísse de perto ele iria para onde eu estava de novo – Posso te fazer uma pergunta?

– Pode – respondi apesar de saber qual pergunta era e de não querer responder.

– Por que você terminou comigo? Você não me ama mais? – era como se já tivesse escutado a frase antes mesmo que ele falasse.

– Não é isso, Hyunseong – eu ainda o amava, e muito, mas obviamente não diria isso a ele. Além de não gostar de dizer esse tipo de coisa, esse era o momento mais inadequado.

– Então por quê?

– Você sabe, alguns problemas – estava tentando evitar detalhes mas provavelmente ficaria sem escolha.

– Não, não sei, não me lembro de nenhum problema.

-Como não se lembra? Meus pais e os seus nos expulsando de casa, todos nossos amigos que desapareceram. Nossos empregos que só conseguimos do outro lado da cidade onde ninguém nos conhecia. Só sair na rua era motivo para todas as pessoas nos encararem como se fôssemos alienígenas. O mundo estava caindo em nossas cabeças, Hyunseong.

– Engraçado – ele começou enquanto colocava o braço em volta da minha cintura – Quando eu tinha o mundo caindo na minha cabeça e tinha você eu estava feliz.

– E agora não está?

– É claro que não, como vou ser feliz sem você?

– Meu deus, como você é meloso – ri, mas no fundo achei fofo. Como ele tinha coragem de falar essas coisas em alto e bom som?

– Você sabe que eu sou meloso, sempre soube – ele também riu e apertou ainda mais o meio abraço enquanto chegava mais perto de mim, se isso era possível. – Jeongmin, vamos ficar juntos de novo, por favor, eu não ligo para nenhum desses “problemas” que você disse.

– Não sei, preciso pensar – a resposta que eu queria dizer era sim, claro. Mas sempre parecia haver mais em jogo que a minha vontade.

– Promete que vai mesmo pensar? – ele estendeu seu dedo mindinho. Rolei os olhos e ri pois como sempre, ele agia como uma criança.

– Prometo – enlacei meu dedo com o dele. Para ele aquilo era quase um pacto de sangue, então ia ter mesmo que pensar sobre.

Quando fomos dormir – na mesma cama já que naquele apartamento tinha apenas uma cama de casal – só conseguia pensar na conversa de horas atrás. Só havia terminado meu namoro com Hyunseong por pensar que era o melhor para os dois, achei que podíamos ser felizes separados, com outra pessoa. Mas pelo jeito não era bem assim que as coisas estavam acontecendo. Nem para mim, nem para ele. Quando começamos a namorar há um ano atrás, conseguimos esconder por um tempo, mas logo meus pais descobriram e começaram a contar para todas as pessoas que conheciam e para as que não conheciam – incluindo os pais de Hyunseong – sobre como seu filho mais novo era uma vergonha, um pecador, e outras outras coisas que eu já nem me lembro mais. Além de me expulsarem de casa, ainda deram dinheiro suficiente para comprarmos um apartamento bem longe deles, cada família deu uma parte. E assim começamos a morar juntos. Era difícil, pois basicamente éramos duas crianças obrigadas a agir como adultos. No começo tudo isso de trabalho, compras, despesas, contas, contas, contas e mais contas, era muito cansativo e complicado, mas com o tempo nos acostumamos. Começou a ser até divertido, Hyunseong sempre falava que éramos casados e até insistiu em comprar alianças. Mas ainda havia aquele sentimento de culpa, não sei exatamente de que, não estávamos fazendo nada errado, mas parece que todas as pessoas do mundo queriam que a gente pensasse que estava. Foi por isso que decidi terminar tudo e pedir para voltar para a casa dos meus pais. Pensando melhor agora, foi um motivo bem estúpido. Nunca liguei para o que pensavam de mim, mas isso é diferente, a pressão é no mínimo três vezes maior. Imaginei se Hyunseong sentia essa pressão do mesmo jeito, ou se era apenas coisa da minha cabeça.

– Hyunseong – sussurrei – Ainda está acordado?

– Sim, eu acho – então ele se virou pra mim, parecia já meio sonolento.

– Você estava quase dormindo, certo? Desculpe.

– Não, tudo bem – ele sorriu para mim, as vezes achava que ele sorria toda vez que me olhava – O que foi?

– Você realmente não liga pra nada daquilo? Não te incomoda as pessoas sussurrando o tempo todo sobre você?

– Na verdade incomoda um pouco, mas ficar longe de você é muito pior – lá estava ele sendo meloso de novo – Sabe, o tempo que estamos separados foi o pior mês da minha vida, acho que o melhor dia desde a última vez que te vi foi hoje – ele sorriu de novo. Não sei como não me enjoei desse monte de coisas que ele fala ainda. Até gostava na verdade.

– Meu mês também foi horrível – não estava mentindo, foi um inferno. Além de tudo ainda tive que aguentar meus pais tentando me arrumar milhões de namoradas.

– Você sentiu minha falta? – óbvio, a cada minuto que passava eu desejava estar perto de Hyunseong. Fazendo qualquer coisa estúpida que noa viesse a cabeça no dia, conversando com ele, ou o beijando, ou simplesmente estando perto, sentia que qualquer coisa era suficiente. Mas haviam palavras melhores para externar esses pensamentos.

– Claro que senti – cheguei ainda mais perto dele na cama. Geralmente o contrário acontecia, mas agora só queria o abraçar, dormir e acordar como se o último mês não tivesse existido.

– Eu também senti a sua, muito, você nem imagina o quanto – quase como se tivesse escutado meus pensamentos ele me abraçou e deitou sua cabeça no meu peito. – Eu te amo.

– Eu também te amo – o abracei de volta e fiquei alisando seu cabelo. Sempre adorei ficar com Hyunseong deitado, até parecia que ele era mais baixo que eu as vezes. Ficamos naquela posição por um tempo, sem falar nada, apenas sentindo a presença um do outro. – Então Hyunseong, estamos juntos nessa? – ele se moveu de onde estava e me olhou com o sorriso mais fofo que se pode imaginar. Sorri de volta, então ele me abraçou mais forte.

– É claro, sempre juntos.
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