Bloody Flower – Capítulo II

O Substituto e seu sorriso

Quarta-feira chegou bem mais rápido que Jeongmin esperava, ainda não estava pronto para, provavelmente, ser substituído. Sempre aparentava ter confiança, mas não era bem assim que se sentia. Assistia outras bandas tocando e chegava a conclusão de que haviam muitos outros vocalistas melhores que ele, porém seus amigos sempre faziam questão de deixar claro que ele era muito bom no que fazia e isso o confortava, o medo de eles mudarem de ideia sobre isso naquele dia era o que mais martelava em sua cabeça incansavelmente.

Ficou agradecido pela loja de instrumentos na qual trabalhava ter pouco movimento naquele dia, pois não conseguia se concentrar por muito tempo e já cometeu erros nas poucas coisas que havia feito. Apenas se permitiu relaxar quando chegou no estúdio para o ensaio.

Ninguém chegara ainda, então se sentou na frente do piano a fim de continuar a música em que estava trabalhando. Por mais que não estivesse em seu momento mais inspirado, conseguiu arranjar boa parte da partitura que Youngmin aprenderia para tocá-la no teclado. Se sentiu satisfeito com o progresso que havia feito e resolveu relaxar um pouco. Abriu um aplicativo de paquera que instalara em seu celular alguns dias atrás. Não era como se esperasse encontrar o amor da sua vida ali, mas era engraçado conversar com alguns caras, dar esperança a eles e depois ignorá-los. Talvez fosse errado gostar de iludir as pessoas assim mas Jeongmin não se importava muito.

Enquanto via alguns perfis, percebeu um rosto familiar em uma das fotos. Olhou por muito tempo por não acreditar que via mesmo o perfil de Minwoo num aplicativo assim. Além do outro ser reservado com esse tipo de coisa, aquele era um aplicativo para homens gays, que não era o caso de Minwoo, pelo menos até onde ele sabia.

Enquanto ainda se recuperava do choque, a porta se abriu e ele ficou ainda mais em choque quando viu que era justamente Minwoo que entrava ali, aparentemente sozinho. Jeongmin não sabia se deveria perguntar alguma coisa ao amigo ou apenas ficar de boca fechada. A segunda opção parecia mais sensata, mas ele não sabia se aguentaria ficar sem falar nada.

— Hyung? Você está bem? – Minwoo lhe perguntou e ele percebeu que provavelmente estava o encarando sem ao menos dizer oi há eras. Jeongmin queria apenas responder, mas sua boca parecia não ter recebido o memorando sobre a decisão que seu cérebro havia tomado.

— Minwoo, por que não me contou que era gay? – Viu o outro ficar pálido e demorar alguns segundos antes de conseguir formular uma resposta.

— De onde você tirou isso, hyung? – respondeu com a voz trêmula. Jeongmin apenas mostrou o celular que ainda estava com o perfil de Minwoo aberto – Me desculpe, eu queria ter contado antes de você descobrir assim mas… – foi interrompido por Youngmin que começou a falar enquanto entrava pela porta aberta.

— O que ele disse é verdade, Minwoo? – dizia com certo choque – Você é gay assim como o hyung?

— Eu já te disse mil vezes que sou bi e não gay, Youngmin – Jeongmin interrompeu tentando explicar o que tentava fazer Youngmin entender desde o colegial sem sucesso.

— É a mesma coisa – Youngmin respondeu mas logo se virou para Minwoo de novo ignorando Jeongmin completamente – Mas então, é verdade?

Minwoo abriu a boca e a fechou sem começar a falar várias vezes, então Kwangmin entrou pela porta com Donghyun antes que ele pudesse formular uma resposta.

— Está tudo bem aqui? – Donghyun perguntou para Jeongmin, seus olhos andando entre ele e Youngmin e Minwoo que se olhavam sem dizer nada.

— Está sim, já íamos começar o ensaio – Jeongmin respondeu.

— Bom, não vão mais, seu novo vocalista está ai fora, posso chamá-lo para entrar?

— Pode sim, hyung – Donghyun concordou com a cabeça e assim que saiu, Jeongmin se virou para Youngmin e Minwoo – E vocês poderiam guardar a DR para depois? Ou vão querer discutir na frente do meu substituto? – os dois permaneceram em silêncio e Jeongmin concluiu que continuariam assim.

Kwangmin não se surpreendeu, por mais que não houvesse escutado o que acontecera, já estava acostumado com seu irmão e Minwoo discutindo constantemente. Os dois brigavam pelos motivos mais banais, como escolher um sabor de sorvete ou o filme que iriam assistir no cinema. Kwangmin preferiria deixar os dois sozinhos, mas não era como se tivesse muitos amigos, então apenas os acompanhava.

Em pouco tempo Donghyun voltou a sala, todos olhavam curiosos para a porta a fim de ver o novo vocalista da Bloody Flower. Jeongmin era o mais curioso entre os quatro, mas tentou aparentar desinteresse, ele não tinha certeza se estava funcionando, nunca teve muito talento para fingir qualquer coisa que fosse.

Quando Jeongmin viu o garoto, não demorou muitos segundos para ter a certeza de que aquela não era a aparência que ele esperava de um vocalista de uma banda de rock. Ele trajava calças largas azuis e um moletom preto, os cabelos sem nenhum corte específico caiam sobre a testa. Apesar disso, ele era alto, tinha ombros largos, e estava com um sorriso angelical no rosto. Jeongmin quase o achara bonito, mas se lembrou que não deveria pegar leve com o novato, por mais que ele se sentisse menos ameaçado após vê-lo.

— Pessoal, este é Shim Hyunseong – Donghyun o apresentou e ele se curvou em seguida – Hyunseong, esses são Minwoo, que é o baterista, Youngmin, tecladista, Kwangmin, baixista e Jeongmin que é guitarrista e vocalista – Jeongmin continuava o encarando, com o intuito de o assustar ou algo do tipo, mas Hyunseong não deixou de sorrir ao cumprimentá-lo.

— Bem vindo a Bloody Flower, Hyunseong – Kwangmin foi o primeiro a se manifestar.

— Espero que nos impressione hoje – Jeongmin completou usando um tom ainda não muito amigável, o que resultou num olhar repreendedor de Donghyun. Mas o novo vocalista ainda não parecia abalado.

— Vou fazer o meu melhor, espero que impressione vocês – Hyunseong respondeu e Jeongmin apenas apontou com o braço na direção do microfone, indicando que ele já poderia começar sua “audição”.

Hyunseong se posicionou em frente o microfone e assim que respirou para começar a cantar seus olhos mudaram. A expressão gentil e até um pouco boba que Jeongmin constatara no outro, sumiu completamente, dando lugar a um olhar confiante e agressivo. Logo ele começou a cantar, não demorou muito para que todos na sala ficassem de boca aberta ouvindo a voz aguda, forte e melodiosa que Hyunseong possuía. Nenhum dos garotos ali presentes imaginariam que ele seria tão bom, por mais que Donghyun tenha garantido antes que ele era. Jeongmin se impressionava cada vez mais, no final da música – que ele mal se preocupara em descobrir qual era – todos olhavam sem reação. Apenas Donghyun sorria, afinal, reagira da mesma forma quando ouviu Hyunseong cantar pela primeira vez.

— Hyung – Minwoo falou se dirigindo a Jeongmin – Nós precisamos dele na banda, você ouviu isso? Foi muito bom – antes que Jeongmin pudesse responder foi interrompido.

— Obrigado, fico feliz que gostaram da minha voz, como disse antes para Donghyun hyung, gosto muito das músicas da Bloody Flower e ficaria muito feliz em cantar com vocês – Hyunseong disse com um sorriso.

— Por mim você já está dentro – Minwoo olhou para Youngmin e Kwangmin que apenas concordaram com um gesto de cabeça. Depois, todos os olhares se voltaram para Jeongmin, que não tinha dito nada até então.

— Não posso negar que seria ótimo ter você na banda, Hyung, posso te chamar assim? – Hyunseong concordou sorrindo. Jeongmin achava que ele sorria demais, e que seu sorriso era lindo – Então, hyung, você pode sim entrar para a banda, mas não vai cantar todas as músicas sozinho, e eu ainda sou o líder e compositor, tudo bem?

— Claro, está ótimo para mim, essa banda é sua, eu não posso tirar todas as suas linhas assim – Hyunseong caminhou até a cadeira onde Jeongmin estava sentado, se ajoelhou e colocou suas mãos no joelho do outro, que levantara um sobrancelha e o olhava desconfiado – Na verdade, eu estava muito nervoso para me apresentar na sua frente, você é tão talentoso, achei que não fosse me aceitar – Jeongmin com certeza adorou ter seu ego inflado um pouco pelo elogio e se permitiu sorrir e agradecer em um sussurro.

— Bom, agora que estamos resolvidos, podemos começar o ensaio. Hyunseong, você sabe cantar Dark Flower? – ele concordou e logo todos se prepararam em seus respectivos lugares.

— Por mais que eu queira ver o ensaio, tenho algumas coisas para fazer, não assustem muito o Hyunseong – Donghyun disse e logo saiu pela porta do estúdio.

O ensaio continuou tranquilamente, Hyunseong acompanhou o ritmo de forma rápida e provou ser um fã da banda como dissera, já que sabia a letra de todas as músicas. Apenas pararam de tocar quando a próxima banda que estava agendada chegou e quase os expulsaram.

Todos iriam para casa a pé, Minwoo era vizinho de Youngmin e Kwangmin, então os três sempre deixavam Jeongmin sozinho no caminho já que sua casa era do lado oposto do estúdio. Mas hoje ele teria companhia, já que Hyunseong dissera que ia naquela direção também.

— Hyung, ainda preciso te passar os horários dos ensaios e a setlist que costumamos usar nas apresentações, você tem algum email ou algo assim?

— Pode ser meu número de celular? Uso pouco o email, é mais fácil por aqui – Jeongmin assentiu pegando o celular que Hyunseong estendia para gravar seu número nele – E ainda podemos conversar por ele, certo? – Jeongmin desviou o olhar do celular para encarar Hyunseong, que olhava sorridente como sempre. Logo desistiu, nenhuma encarada ia adiantar com ele, apenas devolveu o celular sem responder – Preciso ir por essa rua, Jeongminnie, até o próximo ensaio! – disse animado e logo se separou de Jeongmin.

Esse, já se sentia incomodado com a intimidade que Hyunseong pensava que tinha com ele. O garoto era simpático demais, isso sempre alertava seus sentidos. Desde que se conhece por gente sabe que é preciso desconfiar quando alguém é legal demais, principalmente se esse alguém tem chances de roubar sua própria banda.

Agora, a Bloody Flower poderia finalmente decolar, ou escapar de suas mãos como uma pluma.

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Love Game – Capítulo VI

         Give Unto Me

   Observava a cena, atônito. A garota acabara de beija-lo e ele logo saiu do estabelecimento. Ela se voltou para o lugar, o escaneando e seus olhos logo encararam os meus. Parecia assustada, não mais quanto eu estava chocado. Ficou parada por alguns segundos, pensativa, até andar até mim.

— Hyunseong, olá – ela ia fingir que não tinha feito nada? Sinceramente.

— Olá? É isso que você tem para me dizer, MyungSook? – ela fitou o chão, parecia culpada, porque realmente tinha culpa. Eu ainda não acreditava que havia mesmo visto aquilo – Por que você fez isso com ele? – não era porque não gostava do fato de Jeongmin namorar que queria ve-lo magoado.

— Você vai contar para ele? Ele não vai ficar feliz se você disser.

— Claro que vou contar, não faça com que eu pareça o errado por ser sincero com Jeongmin – se ela achava que eu ia simplesmente deixar com que ela o enganasse assim estava errada.

— Podemos nos sentar por um minuto? – pensei e assenti. Queria uma explicação dessa história. Logo nos sentamos e ela começou a falar – Bom, me desculpe, não queria que você visse isso, Hyunseong. Eu gosto muito de Jeongmin, muito mesmo, ele é íncrivel, mas é muito ocupado, eu quase não o vejo e não consigo ter um namorado tão ausente.

— Por que começou o relacionamento em primeiro lugar? Já sabia que seria assim – aquilo era um motivo bobo para terminar um namoro. Começava a sentir que ela havia me traído também.

— Achei que conseguiria ficar assim, mas não deu certo, já estava pensando em falar com ele para terminarmos.

— Amanhã – me olhou, confusa – Converse com ele amanhã, afinal, é melhor que resolvam isso entre vocês – ela concordou – Se você não resolver até lá vou contar tudo.

— Tudo bem, amanhã já não estaremos mais juntos – não entendia porque antes ela parecia tão apaixonada e agora agia como se nem ligasse.

— Você sabe que ele gosta muito de você, não sabe? – me sentia um idiota falando aquilo. Hyunseong, acorda, é sua vez de ter outra chance. Mas se fosse as custas do sofrimento de Jeongmin preferia não ter chances.

— E você gosta muito dele, não gosta? – sorriu fraco.

— Claro que gosto, ele é meu melhor amigo – como sempre, as últimas palavras saíram com certa dificuldade.

— Você entendeu, Hyunseong. Quis dizer que você gosta mesmo dele – não era possível que ela soubesse de alguma coisa, não é como se alguem pudesse contar para ela – Não me olhe com essa cara de espanto, é obvio. No dia que te conheci ficou claro que você era apaixonado por ele, e ele também não consegue ficar dez minutos conversando sem mencionar seu nome, você devia tentar se declarar agora que ele estará solteiro novamente – quem aquela garota adúltera pensava que era para me dar algum conselho, falar como Jeongmin me tratava ou deixava de tratar? Ela o conhecia há dois meses, eu, há três anos. Preferi não começar uma briga ali, então apenas levantei.

— Amanha – foi minha última palavra antes de voltar para a fila. Ainda tinha que pegar os cafés, afinal. Foi um tempo para relaxar e processar tudo aquilo, não queria chegar em casa nervoso e aguentar Jeongmin me enchendo de perguntas. Vi Myungsook sair pela porta, esperava que fosse a última vez que a visse.

X

            Não conseguia parar de pensar no que acabara de acontecer. Me lembrava de como Jeongmin ficou quando foi traído pela última namorada, sentia uma faca entrando em meu peito só de lembrar. Como essas garotas tinham Lee Jeongmin e queriam outra pessoa? Eu daria minha alma para ter a sorte que elas tem, eram simplesmente loucas. Entrei no apartamento e Jeongmin estava deitado no sofá mexendo em seu celular.

— Você demorou – Levantou-se e veio em minha direção para pegar seu cappuccino.

— Eu avisei que a fila estava grande.

— Mesmo assim – não respondi, então ele voltou a falar. Acho que ele não conseguia ficar em silêncio – Hyung, podemos deixar aquela sessão de exercícios para outro dia? Myungsook me mandou uma mensagem dizendo que quer sair comigo amanha, acho que ela tem uma surpresa para nosso aniversário – ‘Com certeza será uma surpresa’ pensei.

— Acho que você está só fugindo da academia – ri tentando mudar de assunto.

— Claro que não – bateu em meu ombro, rindo também – Você sabe que sou um atleta nato.

— Sei, sei sim.

X

            — Já disse que não precisa me levar – dizia envergonhado. Parecia um adolescente que não gosta que os pais o leve em festas.

— E eu já disse que vou ter que sair, então vou levar – na verdade não ia sair, mas estava preocupado, então achei melhor ficar perto dele.

Não discutimos mais, o levei até o restaurante, onde ia se encontrar com Myungsook. Dirigi mais uns quatro quarteirões e estacionei o carro. Comprei uma coca-cola e fiquei dentro do veículo ouvindo músicas enquanto esperava.

O player tocava Untitled, do Simple Plan, aquela era uma das músicas mais tristes que eu já tinha ouvido, me sentia um pouco depressivo por gostar dela. Mas músicas tristes eram muito relaxantes. Olhei para a rua pela janela, chovia um pouco, algo estranho já que o céu estava límpido minutos atrás.

A chuva parou de repente no mesmo segundo em que meu celular tocou, era Jeongmin

— Alô? – não ouvi uma resposta – Jeongminnie?

— Hyung, pode me buscar? – sua voz quase não saia. Já sabia que ele se segurava para não chorar. Nunca deixaria uma lágrima cair em público.

— Claro, estou indo, espere ai – não perguntei o que aconteceu pois sei que ele não iria responder, e porque eu sabia.

Cheguei em cinco minutos, ele entrou no carro e não pareceu notar que eu estava estranhamente perto e disponível. Não falei nada, apenas esperei que ele falasse.

— Ela terminou comigo, hyung – o olhei e pude ver que já estava chorando – Ela disse que tem outro. De novo isso aconteceu comigo, você acredita? – queria fingir que não sabia de nada, mas não iria mentir para ele.

— Eu sabia – sem o olhar já sabia que ele estava me encarando.

— O que? Você sabia? E não me disse nada?

— Eu posso explicar… – fui logo interrompido.

— Já não basta ser traído por ela fui traído por você também?

— Jeongmin, posso me explicar antes de você surtar? – sabia que no fundo Jeongmin acreditava que eu não mentiria para ele e que eu tinha uma explicação, então ficou em silêncio – Ontem, vi ela no café beijando o tal garoto. Fiquei nervoso e fui pedir explicações, ela me contou tudo e ainda pediu segredo. Claro que eu não ia deixar ela te enganar assim, mas ainda achava que isso tinha que ser resolvido entre vocês, então lhe disse que se não conversasse com você até amanha, no caso, hoje, eu contaria tudo.

— Você iria contar mesmo? – parei o carro assim que achei um lugar, então o olhei, ele parecia chorar mais ainda, peguei em sua mão.

— Eu já menti para você antes, Jeongmin? – ele negou – Então por que mentiria agora?

— O amante de Myungsook… – esperei por alguns segundos para que ele continuasse – Ele é mais bonito que eu?

— Claro que não – ri, talvez um pouco alto demais – Ninguem nesse mundo é mais bonito que você – ele também riu.

— Podemos ir para algum lugar bem longe de tudo? Não quero que me vejam assim – assenti e liguei o carro.

O levei para um parque que conhecia, longe dali e geralmente com poucos ocupantes. Quando chegamos logo deitei na grama e ele me acompanhou, se deitando ao meu lado.

— Hyung – murmurei apenas para ele saber que eu ainda estava acordado – Por que nunca consigo alguém? Há algo errado comigo?

— Tenho certeza que há algo errado com elas, é loucura namorar alguem perfeito como você e não dar valor – ele riu, para ele eu falava aquilo só para anima-lo, mas não era nada mais que a verdade – Você vai achar alguem que te mereça.

— Esse alguem está demorando a aparecer.

— Se fosse rápido não teria a menor graça.

— Realmente não teria – ficamos em silêncio por mais alguns minutos, olhando o céu. Odiava ver Jeongmin triste daquele jeito, mas sabia que o único jeito de ajuda-lo seria deixar com que ele se acalmasse sozinho – Se você fosse meu namorado me trairia também? – Que tipo de pergunta era aquela? Meu coração de repente mudou de ritmo e conseguia sentir minhas bochechas queimarem. Decidi me esforçar para levar aquilo numa boa, ele poderia desconfiar caso eu agisse de maneira estranha.

— Se eu fosse seu namorado, Jeongminnie – virei de lado para olha-lo nos olhos, ele também olhava nos meus – Eu seria a pessoa mais sortuda desse mundo.

Pena que por uma obra do destino, a sorte nunca simpatizou muito comigo.

Love Game – Capítulo V

  Mr. Lee     

Tudo parecia borrado em minha frente. Não via nada, apenas sentia. Sentia mãos me acariciando e lábios tocando os meus ferozmente, enquanto eu respondia na mesma intensidade. Apesar de não enxergar, sabia quem estava ali junto a mim, Lee Jeongmin. Com seu jeito perfeitamente experiente, me deixava louco com qualquer toque entre nossas peles. E até eu não parecia tão idiota e leigo no assunto quando procurava suas partes sensíveis para tocar e faze-lo gemer, um som maravilhoso, poderia ouvir a noite toda. Também gemia, um pouco alto, não sabia se estávamos no dormitório ou algum lugar onde pudêssemos ser ouvidos, mas nada daquilo parecia importar agora, só aqueles toques nada puros importavam.

O olhei nos olhos, eles estavam cheios de luxuria e desejo, por mim, parecia inacreditável. Sua pele suada, como a minha provavelmente. Não tive mais tempo de olha-lo, ele descia, me acariciando por todos os lugares, até sua boca repousar em minha roupa de baixo enquanto lentamente a tirava…

Ouvi um barulho e levei um enorme susto, estava em meu quarto e Youngmin estava do lado da minha cama, parecendo um pouco chocado.

— Hyung, me desculpe, você estava fazendo barulhos e se mexendo muito enquanto dormia, achei melhor te acordar – então era um sonho, claro que era.

— Fez bem Youngminnie, obrigada. Estava tendo sonhos um pouco… – acho que eróticos não era a palavra certa a usar – estranhos. Que horas são? – tentei desfocar a conversa do sonho.

— Hora de levantar – só agradeci e me levantei em direção ao banheiro.

Andei cuidadosamente afim de esconder a ereção que se formava dentro de meu pijama. Devia estar vermelho de vergonha por aquela situação toda. O que foi isso? Eu tinha acabado de ter um sonho erótico com Jeongmin e acordara excitado por conta disso, extrapolei todos os limites que podia com isso. Meu deus, nunca pensei que sentiria tanta vergonha.

Chegando ao banheiro, vi parado se olhando a pessoa que menos queria ver no momento. Já não bastava me provocar nos sonhos, tinha que aparecer na vida real apenas usando boxers e regata. Seus braços maravilhosamente esculpidos, mesmo que não malhasse podia ver alguns músculos, eram naturais, eu acho. As coxas, um pouco grossas e definidas, marcadas pelo contorno das boxers pretas. Ele se olhava no espelho, os olhos sempre vivos e brilhante olhavam seu próprio reflexo como se ele soubesse o quão gostoso e maravilhoso era. Com certeza sabia.

Provavelmente percebeu que eu estava o encarando quando se virou para mim e sorriu. Aquele sorriso que eu amava, contornado por lindos lábios vermelhos que pareciam ter imãs, sempre sendo atraídos pelos meus, que lutavam com uma força descomunal para resistir àquela atração. Sua boca se movia, acho que ele estava falando algo, mas não conseguia ouvir, estava concentrado em segurar meus hormônios.

— Hyung, você está me ouvindo? – ele choacolhou meus ombros e eu acordei de meus devaneios, mas ainda não consegui responder – Você está bem?

— Estou sim Jeongminnie, não se preocupe – tentei soar normal mas minha voz saiu rouca e baixa, mal era possível escuta-la.

— Não, você não está, parece tenso. Acho que precisa de uma massagem – e com sua brilhante ideia, me virou de costas e começou a apertar meus ombros com as mãos.

Seus dedos correndo por toda a extensão das minhas costas não me deixou exatamemte relaxado. Seu toque era um pouco bruto, tinha uma força que chegava a ser surpreendente e isso me deixava insanamente preso em pensamentos nada puros. Por alguns minutos me deixei perder, mas já sentia que não aguentava mais.

— Obrigada, Jeongminnie, mas eu realmente preciso tomar banho – tentei fugir de sua visão o mais rápido possível fechando a porta. Eu precisava dar um jeito naquela ereção. Entrei no chuveiro e comecei a trabalhar nisso.

Tentei não pensar nele enquanto me masturbava, mas tudo o que vinha na minha cabeça era aquele sonho, combinado com a sensação de suas mãos que me tocaram e eu ainda podia sentir minha pele formigando.

Acho que nunca me senti tão sujo e pervertido. Ter uma queda por Jeongmin tudo bem, mas imaginar esse tipo de coisa era algo que eu nunca achei que pudesse acontecer.

Sai do banho e tentei me acalmar, logo teria que cumprir agenda e não queria aparecer em público daquele jeito. No caminho, Jeongmin se sentou ao meu lado. Geralmente seguiamos rindo, fazendo piadas e fofocas quando sentávamos juntos, mas não hoje. Eu não conseguia encará-lo sem pensar nos acontecimentos daquela manhã, acho que nunca o veria da mesma forma. Só não sei porque isso começou a surgir dois anos depois de estar apaixonado por ele, talvez fossem os hormônios da adolescência chegando um pouco atrasados.

— Hyung – Jeongmin me chamava e eu o olhei esperando que continuasse – Você está estranho comigo hoje, eu fiz alguma coisa para te deixar nervoso?

— Claro que não, Jeongminnie, eu só estou me sentindo um pouco estranho hoje – ficar nervoso com ele era algo impossível de acontecer.

— Mesmo? – assenti e ele sorriu – Sabe que se precisar de alguma coisa pode falar comigo, certo? Sou seu melhor amigo – já mencionei o quanto odeio as palavras “melhor amigo”?

— Não se preocupe, vai passar logo – apenas sorri e tentei fingir que não era o cara que tinha sonhos eróticos com os amigos.

Ficamos em silêncio por alguns minutos. Eu tentava focar em alguma outra coisa, até ele se dirigir a mim novamente.

— Amanha eu e Myungsook faremos um mês de namoro – dizia sorrindo. Eu evitava falar sobre o assunto namoradinha, mas ele insistia em trazê-lo a tona.

— Que bom, fico feliz que esteja durando – na verdade não ficava.

— E você, hyung, não vai arrumar um namorado? – sempre aquelas perguntas, não aguentava mais responder que não arrumaria namorado nenhum.

— Não é como se eu pudesse sair por ai perguntando para alguns caras se eles são gays e querem sair comigo – falava baixo, não queria que alguem escutasse aquilo. Jeongmin, percebendo o porquê do tom de voz, também sussurrou.

— Não se preocupe com isso, você é lindo, até os héteros teriam uma queda – ele riu. Pena que suas palavras não condiziam a realidade — Mas sério, hyung. Seu gaydar está quebrado? Me lembro de quando saíamos e você me apontava todos os gays que passavam pela rua.

— O gaydar está sendo afetado pelo cansaço dessa agenda – ri fraco e ele riu também. Ele conseguia deixar o assunto que eu mais odiava tocar leve e até engraçado. Tudo ficava melhor com ele por perto, e isso se tornava um problema maior a cada dia.

X

            Voltamos para casa a noite, depois de um dia cheio, a única coisa que eu queria fazer era deitar e dormir. Mas Jeongmin insistia que queria um cappuccino do Starbucks. Disse para ele fazer um cappuccino na máquina de café mas ele alegava que aquela máquina não chegava perto das bebidas do Starbucks. Não deixava de ser verdade, mas era tarde da noite!

Eu, como o bom escravo que era, não discuti mais e saí em busca do tal café. As vezes achava inacreditável como eu fazia as vontades mais absurdas de Lee Jeongmin.

Chegando lá entrei numa fila enorme. Quem tomava café as dez da noite? Provavelmente muitas pessoas.

Distraí-me olhando as pessoas que estavam no lugar, não era como se tivesse algo para fazer, apenas mandei uma mensagem para Jeongmin dizendo que ia demorar. Havia muitos casais ali, mas havia um, num canto, quase escondido que me chamou a atenção.

Uma linda garota de cabelos castanhos ondulados que beijava um garoto alto de cabelos pretos.

Bloody Flower – Capítulo I

Spotlight

            O palco estava iluminado por várias luzes coloridas e a grande platéia delirava a cada nota tocada por eles. Jeongmin sentia a música sair de seu corpo e voltar para seu coração como um boomerang. A energia das pessoas o ouvindo dava um significado diferente a tudo que ele tocava. Claro que ele amava ensaiar numa sala fechada, mas nada se comparava a sensação de tocar e cantar para tanta gente. Era inacreditável que todos ali curtiam a música que ele se esforçou tanto para criar, desde seu nascimento com dois acordes crus até o ensaio final antes daquele show.

Quando a última batida no prato da bateria ecoou, Jeongmin suspirou e abriu os olhos. Viu a platéia os aplaudindo em êxtase e sorriu. Nunca se sentiu tão realizado quanto naquele momento. Aquela pequena boate não comportava mais de duzentas pessoas, mas já era surreal uma platéia daquele tamanho. Há três anos quando os quatro garotos do colegial se juntavam para criar uma banda de rock, nunca imaginaram que alguém além de suas mães ouviriam suas músicas. Mas ali, vendo aquela platéia enorme os aplaudindo, se sentiram astros lendários do rock.

Agradeceram a todos os presentes e saíram do palco, ainda extasiados com a adrenalina que a música os proporcionava. Ouviram muitos elogios no corredor sobre a apresentação, agradeceram e entraram em seu camarim.

— Vocês acreditam que isso aconteceu mesmo? – exclamou Minwoo.

— Não, ainda acho que estou sonhando, queria ser beliscado para saber se é real – disse Youngmin logo seguido de um pequeno grito causado pela dor de um beliscão que levara – Kwangmin! Eu não quis dizer literalmente, meu deus, isso vai ficar roxo por uma semana.

— Desculpe hyung, é que você falou e eu só… – Kwangmin começou a se desculpar com seu irmão mas logo foi interrompido.

— Vocês dois não vão começar agora né? – Jeongmin tentou soar irritado, mas estava tão feliz que não conseguiu – Nós precisamos comemorar, vamos lá para fora cobrar a cerveja de graça que o Donghyun nos prometeu – todos concordaram e seguiram Jeongmin para o bar da boate.

O lugar estava cheio enquanto o som da banda que tocou depois deles ecoava estrondoso em todas as caixas de som. Chegaram com um pouco de dificuldade para desviar das pessoas na bancada. Entre as pessoas sentadas ali, Jeongmin reconheceu de longe seu primo e foi até ele. Tocou seu ombro e ele logo se virou, sorrindo para os garotos.

— Vocês foram muito bem hoje, parabéns. Tenho certeza que vão conseguir mais shows agora – Donghyun quase gritava para que pudessem ouvir o que ele dizia apesar da música intensa.

— Obrigado, hyung, isso não seria possível sem você – Jeongmin disse também gritando.

Ele pedira ajuda para seu primo para divulgar sua banda há um tempo atrás, já que Donghyun conhecia muitas pessoas, incluindo donos de bares e boates como aquela, que deixaram eles se apresentarem em seus estabelecimentos. A Bloody Flower continuaria sendo uma banda de porão sem essa ajuda.

— Agradeça fazendo muito sucesso para me dar um carro novo no futuro – Donghyun riu, apesar de Jeongmin saber que no fundo ele falava sério.

Passaram a noite ali no bar ouvindo a música de seus colegas e os avaliando como prováveis concorrentes, talvez eles fossem uma competição forte no futuro. Também beberam muito até amanhecer, foram para casa sem se esquecer de desmarcar o ensaio do dia seguinte, já que era possível prever uma forte ressaca os impedindo de sair da cama.

X

            Jeongmin acordou no sofá da sala de sua casa. Não se lembrava muito de como chegara ali e nem porque não fora para sua própria cama, apenas lembrava da sensação de tocar em um palco enorme noite passada e sorriu com o pensamento. Imaginava se teria mais chances de tocar em lugares como aqueles, ou até em alguns maiores, afinal, sonhar não custa nada.

Levantou-se e tomou banho para se sentir minimamente limpo depois de uma noite toda suando com tantas pessoas ao seu redor exalando calor humano. Adorava a sensação no momento, mas depois se sentia muito nojento e chegava a cogitar nunca mais ir em alguma boate, sempre acabava voltando e tudo não passava de cogitação no fim das contas.

A inspiração para uma nova música começou a surgir em sua mente assim que acordou. Não podia desperdiçá-la, então quando já se sentia lindo e apresentável novamente, sentou-se em sua cama com seu violão, seu caderno e começou a trabalhar.

Jeongmin era o compositor da Bloody Flower, os outros sempre ajudavam a finalizar as músicas mas ele sempre fazia boa parte do trabalho. Cantar as músicas que ele mesmo compunha o deixava duas vezes mais orgulhoso de seu trabalho.

Já tinha quase metade da música depois de duas horas compondo. Apenas a melodia, ele não era muito bom com as letras, nessa parte a ajuda de Kwangmin era sempre bem vinda, se lembraria de falar com ele no dia seguinte durante o ensaio. O baixista da Bloody Flower era o que melhor trabalhava com as palavras, o que era essencial para a banda. Youngmin e Minwoo também ajudavam quando não estavam discutindo por qualquer razão que Jeongmin já desistira de entender. Só esperava que um dia chegasse no ensaio e visse os dois em paz.

X

            Jeongmin viu que não seria naquela segunda-feira o dia que teria paz em seu ensaio. Suspirou ao abrir a porta e entrar no estúdio carregando sua guitarra. Cumprimentou Kwangmin que acenou de volta para ele, já os outros dois mal notaram sua presença.

— Você ficou a noite toda agarrado naquela garota, Youngmin – Minwoo gritava – É a milésima vez que você me deixa sozinho por alguma.

— Eu não sou sua babá, você devia arrumar alguém também e me deixar em paz – Youngmin gritou mais alto de volta.

Jeongmin olhou para Kwangmin como se perguntasse o que infernos estava acontecendo ali. Mas ele apenas deu de ombros e voltou a afinar seu baixo, já estava acostumado com o irmão e o amigo gritando um com o outro sem parar.

— Está querendo dizer que não me quer mais por perto? – Minwoo já falava um pouco mais baixo. Youngmin sentiu seu coração apertar ao ouvir o tom magoado que o outro usava.

— Não foi isso que eu quis dizer, Minwoo. Você sabe que é meu melhor amigo, me desculpe – os dois se abraçaram. O que fez Jeongmin ficar ainda mais confuso. Não importa quantos anos se passassem, ele nunca se acostumaria com a forma estranha daqueles dois se tratarem.

— A DR acabou ou vamos ter que esperar mais para começar? – Kwangmin disse enquanto os julgava com o olhar.

— Podemos sim, vamos começar com Sacrifice – Minwoo se posicionava em sua bateria. Assim como Youngmin em seu teclado. Jeongmin suspirou e pegou sua guitarra, indo até o microfone localizado a frente dos outros instrumentos.

A música estava sendo tocada perfeitamente, como sempre, afinal foi a primeira de autoria própria da banda e já a ensaiavam há muito tempo.

No meio de sua execução, a porta se abriu e puderam ver Donghyun pedindo para que parassem. Todos pararam dando atenção ao mais velho que os olhava sorridente.

— Pessoal, tenho uma boa noticia para vocês! – ele exclamou animado.

— Você conseguiu contrato com uma gravadora super famosa e vamos poder gravar nosso primeiro EP? – indagou Jeongmin com brilho nos olhos.

— Claro que não Jeongmin, você sonha alto demais – Donghyun revirou os olhos. Deixando Jeongmin desanimado, ele sempre sonhava com seu EP – Mas continuando, a boa notícia é que consegui um vocalista novo para vocês.

— Mas o Jeongmin hyung já é nosso vocalista – disse Minwoo.

— Eu sei, mas eu estava pensando e acho que precisam de alguém só para cantar e se movimentar, a dinâmica vai ser bem maior assim – Donghyun falava animado como se fosse uma ideia mais brilhante que a invenção da roda, enquanto Jeongmin apenas o olhava como se fosse matá-lo a qualquer momento.

— Donghyun, você não pode chegar aqui e simplesmente me falar que não vou mais ser o vocalista da minha própria banda. Nós a criamos e eu não vou deixar qualquer estranho entrar e ainda roubar minha função, nem sabemos se ele é bom o suficiente – Jeongmin falava ainda indignado com a audácia de seu primo ao decidir aquilo de repente sem ao menos o consultar antes. Por mais que tivesse ajuda, Jeongmin ainda era o líder da Bloody Flower.

— Ninguém vai roubar seu lugar, Jeongmin. Convidei ele só pela dinâmica, não é como se eu achasse que você é um vocalista ruim, se acalme – Donghyun falava para Jeongmin, que não parecia se acalmar – E não tem nada decidido ainda, eu o chamei para o ensaio de quarta, assim vocês podem o ouvir cantando e o conhecer antes de decidir qualquer coisa. Mas acho que vocês vão adorar, a voz dele é inacreditável! E combina muito com o estilo da Bloody Flower.

— Nós podemos considerar antes de descartá-lo de uma vez, ele pode ser realmente bom, o que acha, hyung? – Kwangmin perguntou olhando diretamente para Jeongmin, que parecia ainda mais nervoso que antes.

— Tudo bem, vamos ouvi-lo primeiro. Mas já aviso que ele não vai entrar se for razoável, precisa me surpreender – Jeongmin falava de maneira ríspida.

— Tenho certeza que vai – Donghyun ainda sorria apesar dos olhares mortais de Jeongmin – Bem, ainda tenho coisas para fazer, só vim avisá-los. Até quarta.

Ele fechou a porta e todos continuaram em silêncio. Os três mais novos se olhavam preocupados. Todos sabiam que Jeongmin estava irritado e que falar com um Jeongmin irritado nunca terminava bem, ninguém teve coragem de se pronunciar.

— Vamos continuar – Jeongmin disse, de repente sorrindo como se nada tivesse acontecido, aquilo soou um alarme de perigo em todos os presentes da sala, mas apenas concordaram e voltaram a tocar.

Jeongmin sentia vontade de matar Donghyun e o tal vocalista que queria roubar seu lugar. Mas ainda tinha que ensaiar e não deixaria suas prioridades de lado por isso. Estava confiante que o tal vocal não era melhor que ele, iria apenas dispensá-lo educadamente quando o visse. Ninguém substituiria Lee Jeongmin tão facilmente.

Drabble (Original) – Táxi

As luzes da cidade a noite iluminavam meu trajeto, mais que a luz da lua e das estrelas, que cada vez estavam mais desvanecidas sobre o céu escuro. Toda vez que as olhava, fracas, mas ainda brilhando, sentia meu coração se apagar no mesmo ritmo enquanto o brilho daqueles sentimentos tomavam conta de todo o meu corpo.

Quando a motorista do taxi que me levava perguntou pra onde íamos, não consegui responder. Apenas disse para seguir a estrada e ir para longe. Não tinha um destino, só queria me distrair de minha própria mente.

Todos dizem que o primeiro amor é um desastre mágico. Nunca acreditei até que acontecesse comigo. Procurei algum tipo de sentimento forte em vários garotos, até conseguia no começo, mas logo desaparecia junto com todo o meu interesse. Não percebi logo que meu interesse era pelas garotas, mas quando me dei conta, já estava completamente apaixonada.

Nicole apareceu na minha vida de repente, como uma boa amiga. Ela era filha de um dos acionistas da minha empresa. Foi uma das pessoas que fui obrigada a conhecer em mais um coquetel. A primeira coisa que reparei foi nos olhos pretos e brilhantes, que expressavam doçura. Os cabelos também pretos, lisos e curtos com uma franja e a pele pálida. Tudo isso combinado com uma voz doce faziam-na parecer pura e inocente. Mal sabia eu que naquela noite sairia dali com um número de telefone e uma promessa de uma mensagem no dia seguinte.

A promessa foi cumprida, muitas outras conversas e inevitáveis encontros aconteceram depois disso. O que também foi inevitável foram os sentimentos que cresceram a partir dai. Nunca havia sentido nada parecido por ninguém, dei toda minha confiança a ela em pouco tempo. Sentia que era a pessoa mais feliz do mundo ao seu lado, sentia que ela me entendia de forma que ninguém jamais entendeu, tudo nela me deixava em um transe deslumbrante. Não demorou muito para estar perdidamente apaixonada.

Seus lábios eram doces assim como eu imaginava, foi o que percebi na primeira vez que nos beijamos. Nunca me cansaria de tocá-la e sentir seus toques na minha pele. Estava muito feliz de ter Nicole comigo, por mais que ela não quisesse dar um nome a relação que tínhamos. Eu devia ter encarado isso como o primeiro sinal do que viria a acontecer.

Fui tirada dos meus devaneios pela motorista do táxi que parou no posto de gasolina para abastecer e me perguntou se eu queria algo da loja de conveniência. Respondi que sim, precisava muito de uma bebida naquele momento.

A caixa da loja estranhou minhas lágrimas, meus olhos avermelhados e meu rosto inchado, me perguntou se estava tudo bem, com um sorriso triste lhe disse que ela não precisava se preocupar e caminhei de volta para o carro. Foi a primeira vez na noite que senti a dor que o salto causava nos meus pés e o desconforto que aquela roupa social provocava em todo meu corpo. Apenas tirei os sapatos quando me sentei antes de prosseguir minha viagem sem destino.

Olhei para meu celular apenas para ver uma notificação “Senhorita Raquel, precisamos marcar uma reunião amanhã, os estoques…” não me preocupei em abrir a mensagem para ler o conteúdo completo dela. A última coisa que queria naquele momento era me preocupar com trabalho.

Assim que o táxi voltou ao seu curso as memórias voltavam a me invadir, agora as mais recentes, de algo que acontecera horas antes.

Nicole nunca me visitava no trabalho, por isso estranhei sua presença ali no meu escritório. Ela me disse que precisava conversar e me contava alegremente sobre o casamento que seu pai havia arranjado para ela com um rapaz muito bonito e herdeiro de uma das maiores empresas do país. Depois da palavra “casamento” fiquei tonta e mal consegui processar o resto do que ela falava. Só entendi quando ela começou a falar que devíamos terminar qualquer envolvimento que tínhamos, mas que ela queria continuar sendo minha amiga, pois me considerava muito como tal e que me convidaria para ser madrinha em seu casório.

Dei meu melhor sorriso falso para dizer que estava tudo bem e parabenizá-la, esperei que saísse da minha sala para derramar todas as lágrimas que imploravam para sair. Minha maior felicidade se tornara meu pior tormento.

Fiquei desde aquele momento me perguntando por que ela fez aquilo. Por que alguém que se dizia minha amiga brincaria com meus sentimentos daquela forma ? Fazendo com que eu me apaixonasse e sabendo que jogaria aquele sentimento fora na primeira oportunidade. Pensei muito nisso sem encontrar uma resposta que não fosse a crueldade.

Em poucos meses ela estaria casada e feliz, enquanto meus olhos transbordavam lágrimas e meu peito se enchia com uma dor que nunca pensei que pudesse sentir. Foi ainda mais triste perceber que ela não ligava, que eu fui a idiota o tempo todo e sofreria as consequências disso.

A motorista chamou minha atenção para dizer que estávamos muito longe do ponto inicial, me disse que se continuássemos andando, logo sairíamos da cidade. Era hora de voltar, lhe dei o endereço do meu apartamento e pedi que dirigisse para lá. Infelizmente não podia fugir de tudo e ficar naquele táxi para sempre.

Não importa o quanto eu andasse pela cidade me afundando em meus sentimentos, a realidade ainda estava lá, eu precisaria enfrentá-la no dia seguinte e fingir que as feridas não existiam dentro de mim.

Precisava manter a esperança de que elas se cicatrizariam sem deixar um grande estrago na minha alma.

Love Game – Capítulo IV

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  Quando Jeongmin me olhou com aquele sorriso no rosto, já imaginei que não iria escutar nada que me agradasse. Apesar de ele ficar feliz por dividir tudo comigo, eu preferia permanecer ignorante sobre alguns acontecimentos de sua vida. Mas o que eu mais temia aconteceu, Jeongmin me contava alegremente sobre sua nova namorada.

Isso já aconteceu antes, mas quando acabou, imaginei que não precisaria passar por aquilo de novo, fui muito estúpido. O aperto no peito, a sensação de preferir morrer que estar ali ouvindo aquelas palavras, a dor de saber concretamente que o amor da sua vida nunca vai te olhar, nunca vai cogitar também te amar, que você vai passar o resto de seus anos sofrendo por algo tão idiota como isso, mas que consegue destruir seu coração em dezenas de pequenos pedaços, como uma peça de vidro que nunca retornaria a sua forma original.

Um amor sem perspectiva de realização apesar de doer um pouco é suave, você não tem certeza do que pode acontecer e ainda nutre uma gota de esperança; mas, naquele momento, toda a esperança fora extraída de minha alma já sem cor e com pouca vida restante.

Apesar de me sentir sem chão, sorria enquanto ele contava sobre como a conheceu durante um passeio pelo parque que ficava perto de sua faculdade e como se apaixonaram perdidamente desde então – duas semanas atrás. Gostaria de dizer que nesse curto período de tempo é impossível se apaixonar assim, mas pareceria com inveja ou ciúme então apenas o parabenizei e finalmente dei uma desculpa de estar com muito sono e precisar dormir, não pude escapar de um último pedido.

– Hyung, quero que a conheça – ele segurava meu pulso para que eu não entrasse para meu quarto antes de o responder, o que era exatamente o que estava planejando. Questionei o porquê de tal pedido e ele respondeu – Preciso da sua aprovação, afinal, você é meu melhor amigo – a cada dia que se passava o ódio pela palavra amigo aumentava – Ela se parece muito com você, os gostos também são semelhantes, vocês vão se dar muito bem.

– Então seu tipo ideal é uma garota que se pareça comigo, Jeongminnie – ri tentando disfarçar qualquer coisa que pudesse transparecer daquela conversa horrível.

– Claro, como seria outro? – também riu e me soltou, me desejando boa noite, o qual respondi num último suspiro desacompanhado de lágrimas.

Entrei no meu quarto e imediatamente entrei em baixo das cobertas, escondendo meu rosto para que pudesse apenas chorar com um pouco de privacidade. Isso era um grande problema em morar num dormitório, se alguem visse me perguntaria o que aconteceu e eu não queria dizer a verdade, além de nunca ter sido um bom mentiroso. A única alternativa era torcer para ser invisivel por algumas horas.

Consegui esconder as lágrimas, mas não consegui esconder o estado horrível em que me encontrava nos dias seguintes. Até quando me olhava no espelho parecia que eu havia sido atropelado por um trem, e realmente havia, um trem chamado Lee Jeongmin. Que passou por cima de mim sem dó e sem perceber o dano que tinha causado, seguiu sua viagem à heterolândia tranquilamente.

Todos me perguntavam o que aconteceu com meus olhos e nariz vermelhos, eu apenas respondia que estava cansado. Era fácil de acreditar, pois realmente aquela agenda toda era feita para destruir o ânimo de qualquer pessoa, e fácil de mentir porque uma parte era verdade. Minha mentira não pareceu convencer Jeongmin, ele continuou a me perguntar o que estava acontecendo. Depois de vinte minutos recebendo inúmeros “Nada” como resposta, resolveu desistir e mudar de assunto.

Depois de Jeongmin contar a novidade a todos, Kwangmin me olhou, recebendo a resposta que queria há poucos dias atrás. Nem precisava confirmar a resposta, mas mesmo assim me arrastou até o banheiro, onde ele me consolou enquanto eu chorava mais um pouco. Dizia que eu deveria arrumar alguém – outra vez – e que deveria esquecer Jeongmin de uma vez por todas, eu concordava dizendo que com certeza faria isso. O problema é que falar era sempre mais fácil que fazer.

Os dias passavam normalmente, já me acostumava com a tristeza, apesar de não supera-la, sua presença frequente já se tornava de fácil controle para mim. Até o momento que Jeongmin me perguntou se eu poderia sair com ele e sua namorada no dia seguinte. Como negar algo àquele lindo sorriso? Era impossível. Aceitei tranquilamente e voltei a lavar a louça, tarefa que executava antes do convite. Chorava ainda mais, o controle não mais permanecia depois daquilo.

X

            Coloquei minhas melhores roupas – na minha opinião – para conhecer minha adversária. Pensei em me parecer com um legítimo macho de quem as meninas tem medo, talvez ela se afastasse de Jeongmin caso eu a amedrontasse o suficiente. Aquilo parecia impossível na minha mente, mas tentar não ia custar nada. Com minha jaqueta preta de couro, calças também pretas, uma regata branca por baixo e cabelos num topete sendo jogados para cima, fiz o que pude para ser o homem mais másculo de todo o paìs. Jeongmin entrou no quarto e vi apenas seu reflexo no espelho, lindo, como sempre, com aquele estilo despojado e delicado ao mesmo tempo, os olhos expressivos perfeitamente delineados, os cabelos alinhados que se encaixavam perfeitamente em sua figura e o sorriso, que fazia meu coração acelerar ou parar, não tinha muita certeza, não conseguia prestar atenção nas movimentações dos orgãos internos com aquela perfeição em frente aos meus olhos.

– Está bonito, hyung. Até parece que quem vai se encontrar com a namorada é você – riu enquanto se aproximava e pegava um lápis de olho para me ajudar a aplicar. Sabia que eu era horrível manuseando essas coisas.

– Apenas quero que ela tenha uma boa impressão de mim – tão boa que desista de você, vá embora e deixe meu caminho livre novamente.

– Ela vai te adorar, quem não adoraria? – ‘muitas pessoas’ pensei, mas apenas sorri e continuei em silêncio até que ele terminasse minha maquiagem – Pronto, podemos ir? –  concordei e deixamos o dormitório.

X

            Marcamos o “encontro” em um café perto do dormitório. Logo que entramos, vi uma garota sorrindo e acenando em nossa direção, Jeongmin acenou de volta e fomos em direção a ela. Quando chegamos, ela sorriu para mim e se curvou. Era muito bonita, cabelos longos, castanhos e levemente ondulados, uma maquiagem leve, mas bem feita, era baixa (Claro, Jeongmin nunca namoraria uma garota muito alta, ou ele pareceria ainda menor), super fofa e delicada, um esteriótipo de garota perfeita, que pelo que escutava, todos os garotos sonhavam. Talvez Jeongmin tivesse medo que eu ficasse interessado nela se não soubesse que não me interessaria nem se fosse a mulher mais bonita do mundo.

Fiquei com muita inveja. Sabia que aquela garota na minha frente poderia dar a Jeongmin tudo o que ele sonhasse em um relacionamento, enquanto eu não poderia dar nada. Não podia lhe dar uma familia, nada que fosse socialmente aceitável e nem mesmo sexo, nem uma vagina eu tinha. A única coisa que eu tinha era decepção. Fui tirado de meus pensamentos.

– Myungsook, esse é meu melhor amigo, Hyunseong – dizia sorrindo – Hyunseong, essa é minha namorada, Myungsook – ouvir aquilo doeu mais que eu imaginava. Pensei que não poderia ser pior que quando ele me deu a grande notícia pela primeira vez, estava errado.

Mas apenas sorri e disse que estava lisonjeado em conhece-la. Naquele momento me senti um ótimo ator pois minha vontade era pular no pescoço dela a qualquer momento. Não que eu fosse fazer minha vontade, nunca agia como um descontrolado.

Conversamos enquanto eu tomava meu frappucino e tentava me concentrar em Jeongmin e fingir que aquela garota nem estava ali. Não adiantou muito, ela me perguntava muitas coisas, queria dizer “Minha vida não te interessa, querida” mas apenas respondia educadamente.

Antes de sairmos, Jeongmin insistiu em pagar, o que era estranho já que ele sempre me fazia pagar tudo o que comprava, se dirigiu até o balcão e nos deixou sozinhos por uns minutos. Tinha algo que eu precisava dizer.

– Myungsook – ela, que estava mexendo no celular, me olhou esperando que continuasse – Pode me prometer uma coisa? – assentiu com a cabeça – Por favor, cuide bem de Jeongmin. Ele já teve algumas decepções amorosas, não quero ve-lo machucado de novo.

Foi a primeira vez que fui sincero o dia todo. Apesar de todo o ciúmes e inveja que sentia no momento, o que eu mais queria era ver Jeongmin feliz, sabia muito bem que não seria eu a trazer aquela felicidade, então era melhor te-la com outra pessoa.

– Você gosta muito dele, não é? – concordei – Ele sempre fala de você com muito carinho. Não se preocupe, vou cuidar dele.

Jeongmin falava de mim para sua namorada? Essa ideia realmente nunca havia passado pela minha mente. Achava que ele só lembrava de mim quando queria algo, ele é sempre tão indiferente a tudo. Mas talvez ao menos nossa amizade importasse de verdade para ele.

Finalmente fomos para casa, no caminho, Jeongmin ficava me perguntando o que eu tinha achado de Myungsook. Apenas disse a verdade, que a achei bonita e que ela parecia ser legal. Ele sorria, parecia estar feliz de verdade com ela. Aquilo me deixava feliz no fundo, bem no fundo do meu coração, apenas uma pequena ponta do fundo, o resto queria apenas deitar e ficar chorando para sempre.

One Shot (Barquelle) – All The Things She Said

Barbie estava desolada após o fim de seu namoro com Ken. Por mais que ela tenha escolhido esse caminho, era difícil mudar aquilo que já durava tantos anos. Em seu closet, estava sentada atrás de um dos armários tentando se esconder de qualquer um que tentasse a procurar, não estava com vontade de bater papo.

– Barbie? – escutou uma voz muito conhecida em algum lugar do closet não tão perto de onde estava – Barbie? Você está ai? – por mais que não quisesse falar, era impossível não atender àquela voz.

– Estou aqui, Raquelle – logo ouviu passos em sua direção e logo a morena estava se sentando do seu lado.

Ficaram um tempo sentadas em silêncio. Barbie, ainda triste, sem vontade de falar algo. Raquelle, sem palavras, algo raro, mas não era muito boa em confortar as pessoas e não queria dizer besteiras naquele momento. Mesmo com pudor, decidiu quebrar a quietude.

– Barbie… sinto muito pelo seu término. Não sei exatamente o que aconteceu, mas você sabe que não fiz nada para causar isso, certo? Não dessa vez – dizia calma e lentamente.

– Eu sei, Raquelle, não se preocupe, a culpa foi toda minha.

– Se importaria de me contar o que aconteceu? Odeio te ver triste assim, você é sempre tão alegre – a loira deu um pequeno sorriso ao ouvir as palavras da outra.

– Obrigada pelo apoio – sorriu para a morena mas continuou a falar mais seriamente – Quer mesmo saber? Planejo te contar isso há algum tempo.

– Como planeja me contar se tudo aconteceu hoje?

– Não foi algo de apenas um dia, Raquelle, já faz um tempo que carregava essa vontade de acabar com isso.

– Do que você está falando, Barbie? – Raquelle estava confusa, o casal parecia feliz até ontem. Por que Barbie iria querer romper o relacionamento?

– Preciso que preste muita atenção no que tenho a dizer.

– Pode falar, estou escutando.

– Raquelle, há algum tempo percebi que havia uma razão para sempre te querer por perto, por mais que todos dissessem que você queria me fazer mal. Eu sentia que não, sentia que algo especial sempre aconteceu entre nós, algo que eu não compreendia, mas finalmente entendi e quero que você saiba. Eu te amo – Raquelle estava sem palavras, nunca imaginou realmente ouvir aquilo.

– Barbie, eu… – não conseguiu concluir a frase.

– Não precisa dizer nada, sei que você gosta do Ken, agora o caminho está livre.

– Você achou mesmo que eu gostasse do Ken? – não conseguiu conter o riso – Eu sempre quis separar vocês dois por ciúmes de você, eu também te amo, Barbie.

– Mesmo? – os olhos azuis da loira brilhavam enquanto olhava nos de Raquelle.

– Mesmo – a morena sorria.

– Vamos ficar juntas para sempre.

– Mas é claro, para a eternidade.

Então elas diminuíram a distância entre elas e seus lábios se tocaram, selando a união de seus corações e realização de seus maiores sonhos.

Love Game – Capítulo III

Sem Você

Acordei de um sono pesado com alguém balançando meus braços, provavelmente para de despertar. Agora um pouco mais consciente consegui reconhecer a voz de Kwangmin. Murmurei alguns sons que nem eu reconheci, mas era uma tentativa de perguntar por que ele estava me acordando, parece que ele entendeu o suficiente para me responder.

– Donghyun hyung me pediu para te chamar, já vamos tomar café da manha – sentou-se em minha cama enquanto eu me levantava para sentar também e tentar espantar o sono extremamente forte que tomava conta de mim naquele momento.

– É tão tarde? – coçei os olhos e o vi assentindo mesmo com minha vista embaçada – Fiquei no estúdio até tarde com Jeongmin ontem e quase não dormi.

– E você vai ficar até quando nessa com Jeongmin hyung? – ele me perguntava sério.

– Nessa qual? – me fiz de desentendido, não queria falar disso logo pela manhã.

– Você sabe, hyung – Kwangmin sabia de meus sentimentos sobre Jeongmin. Descobriu há pouco mais de um ano atrás, claramente, não por vontade da minha parte para contar algo.

X

– Hyung, você está sentado ai com essa cara faz uma hora, você está bem? – olhei para Kwangmin que entrava na sala com um grande pote de sorvete de baunilha nas mãos.

– Que cara, Kwangmin? – respondi talvez um pouco rispidamente demais, vendo como ele me olhou com os olhos arregalados. Abriu a boca várias vezes, tentando dizer alguma coisa. Me senti mal, não era culpa dele se eu estava irritado – Me desculpe, não estou de bom humor.

– Isso ficou claro, o que aconteceu? – sentou-se ao meu lado e me ofereceu uma colher. Tinha duas em suas mãos, uma para cada um de nós, logo abriu o sorvete e me servi de uma colherada antes de responder, acho que devia ter um jeito de falar aquilo sem soar estranho.

– Jeongmin saiu com sua nova namoradinha hoje – rispidamente engoli outra colherada do sorvete. Ele parecia me analisar por alguns segundos antes de responder.

– Você gosta do Jeongmin hyung? – ainda olhava nos meus olhos. Não sabia dizer se ele sabia de tudo ou não, resolvi tentar não demonstrar nada, ele podia estar falando sobre amizade apenas.

– Claro que sim, ele é meu melhor amigo. Só não gosto de quando ele me dispensa por alguma garota – tentei parecer o mais natural possível, mas acabei gaguejando um pouco. Só fiquei torcendo para ter o convencido.

– Você entendeu o que eu quis dizer, hyung, não finja que não – comecei a ficar desesperado. O que eu iria falar? Não tinha escolha a não ser falar a verdade, mesmo tendo isso decidido, nenhum som saia de minha boca. Por que Kwangmin tinha que ser tão esperto? – Eu já tinha percebido antes, vocês parecem estar em outro mundo juntos, nunca vi nenhum par de amigos agindo assim. Só achei que ele correspondia seu sentimento. Não parece ser o caso, ele sabe que você gosta dele? – apenas escutava. Como ele podia saber dessas coisas apenas observando de fora? Era incrível. Apenas neguei com a cabeça, ainda incapaz de falar alguma coisa – Você devia falar, talvez ele corresponda, hyung.

– Ele não vai – finalmente levantei a cabeça, ele me olhava esperando que eu continuasse – Ele até sabe que sou gay, mas sei que ele gosta de garotas, tem até uma namorada, me confessar só destruiria nossa amizade, não quero isso.

– Não acho que seria bem assim, mas você decide o que vai fazer – assenti com a cabeça, começava a sentir lágrimas caindo de meus olhos. Mas sequei e segurei as que insistiam em cair, não deixaria Kwangmin me ver chorando – Hyung, pode conversar comigo sobre isso se precisar, somos amigos, certo? – ele sorriu para mim e sorri de volta.

– Muito obrigada, Kwangminnie – passamos o resto do dia vendo filmes e comendo sorvetes.

Jeongmin terminou com a tal namorada alguns dias depois, ela havia traído ele com um garoto mais velho. O consolei por uns dias, apesar de ficar triste por vê-lo daquele jeito, não podia deixar de sentir um pouco de alívio por ele estar solteiro de novo, não que ele fosse querer algo comigo, mas era inevitável.

X

– Não quero falar sobre isso, Kwangmin – me levantei da cama e segui até o banheiro. Ele logo apareceu atrás de mim.

– E o que você quer, continuar sofrendo? – não podia negar que ele tinha razão, mas não é como se eu pudesse ir no meu cérebro e desligar o botão “Paixonite por Jeongmin”.

– Acho que sim – disse sinceramente, ele apenas me lançou um olhar de desaprovação e saiu sem dizer mais nada.

Continuei escovando os dentes enquanto pensava no que Kwangmin dissera. Sabia que ele se preocupava comigo e não queria que eu sofresse, mas eu não conseguia encontrar nenhuma solução. Não havia jeito de me livrar de meus sentimentos e muito menos te-los correspondidos. Procurar alguém para me fazer esquecer também não era uma opção. Era errado usar alguem desse jeito, nunca teria coragem de fazer isso. O jeito era continuar sofrendo, como fiz nos últimos dois anos.

Fui para a cozinha e dei um ‘Bom dia’ direcionado a todos. Meu olhar foi direto para Jeongmin, que sorria para mim e batia numa cadeira a seu lado, que havia reservado para mim, gesticulando me pedindo para me sentar ao seu lado. Me irritava que cada coisa tão pequena significasse tanto para mim, era só uma cadeira, mas para mim, quis dizer que ele se importa o bastante para querer que eu ficasse ao seu lado. Sorri e me sentei ao seu lado, onde ele havia indicado.

Não tinhamos nada programado para aquele dia, então, depois do café da manha, estávamos livres para fazer o que quisermos. Perguntei a Jeongmin se ele queria ver um filme comigo, como costumavamos fazer em tardes livres, mas ele recusou, disse que tinha coisas a fazer. Apenas concordei e fiquei na sala esperando que ele saísse. O que ele poderia ter para fazer? Quando saía com seus amigos, geralmente era a noite, e para visitar a família ele precisaria de mais de um dia livre, não era o que tinhamos no momento.

Ele apareceu na porta de seu quarto enquanto a abria e já pude sentir o cheiro forte de perfume, chegou na sala e vi suas roupas, uma camiseta azul, calças jeans escuras e jaqueta de couro preta. Além das muitas joias, vários colares, dois brincos em cada orelha e três aneis, dois deles identifiquei como meus. Ele apenas se despediu casualmente antes de sair pela porta principal. Algo naquilo não me cheirava nada bem, meu estomago se revirava de pensar se ele estaria indo encontrar uma garota, alguem mais importante que eu com certeza. Resolvi ir até Minwoo e perguntar se ele sabia de algo, ele apenas negou dizendo.

– Se ele não te disse, não ia me dizer, hyung – um pouco ríspido, mas era Minwoo e eu já deveria estar preparado para uma resposta como aquela. Apenas agradeci e voltei para a sala, onde coloquei algum DVD aleatório para assistir.

X

Beirava a meia noite quando ainda assistia filmes. Tinha perdido as contas de quantos já havia visto e já estava morrendo de sono, mas não conseguiria dormir antes que Jeongmin chegasse.

Não demorou mais quinze minutos para que a porta se abrisse e revelasse um Jeongmin sorridente entrando no apartamento. Arqueei uma sobrancelha enquanto o olhava, era muito estranho o ver agindo daquele jeito.

– Onde você estava até tão tarde, Jeongminnie? – finalmente perguntei o que deveria ter perguntado antes que ele saísse.

– Ainda acordado, hyung? Está tarde – ainda sorrindo, sentou-se ao meu lado no sofá e tirou os sapatos brancos com enormes saltos pretos.

– Sim, estava te esperando – soou um pouco estranho mas não consegui pensar em nenhuma mentira na hora, então seria a verdade mesmo.

– Que bom – se virou para mim quando terminou de tirar as meias e olhou diretamente em meus olhos – Preciso te contar uma coisa.

Desde o começo do dia já sentia que ele não seria bom, parece que isso começaria a se concretizar.

One Shot – As Flores e os Zéfiros

Os dias se passavam lentamente em Alfheim, ainda mais para quem não tinha uma função.

A floresta era um lugar magnífico, sua terra era verde, as águas cristalinas e a temperatura sempre ideal, graças a todos os elfos que faziam tudo que podiam para deixar aquele lugar sempre perfeito e na maioria das vezes usavam seus dons conjuntos com a natureza para o bem comum.

Todo elfo já sabia com qual elemento tinha afinidade, pois nasciam dele. Quando um elfo completava seus 15 anos, já era hora começar a treinar para realizar a conexão e trabalhar durante toda sua vida com seu elemento. Não demorava muito para que se conectassem com sua natureza. Pelo menos deveria ser assim com todo mundo.

Hyunseong já sabia há muito tempo que era um filho do Ar, mas já tinha 24 anos e não conseguira sua mágica ainda. Sua irmã do Ar e vizinha Hyosung, sempre lhe dava conselhos, dizia que ele precisava continuar tentando e o fazia ir sempre para lugares altos para sentir seu elemento em sua maior força e se comunicar com ele. Nunca funcionava.

Os outros moradores da floresta o olhavam com pena, era óbvio para eles que ele nunca conseguiria ser um verdadeiro filho do Ar, que algo dentro dele sempre o impediria disso. Mas ele não podia parar de tentar, era sua função principal como um elfo, afinal.

Durante os longos anos que procurava seu elemento, pensava sempre em desistir. As vezes queria encontrar outro elfo que pudesse passar a vida com ele e descobrir o sentimento que outras espécies chamavam de amor.

Na verdade era seu sonho desde sempre, queria amar.

Mas os elfos não amavam uns aos outros dessa forma, eles viviam apenas para se conectar a natureza e trazer harmonia para o planeta. Esse pensamento logo saia de sua mente e ele se esforçava para focar em seu principal objetivo novamente.

Por isso, resolvera naquela manha tentar meditar na montanha mais alta de Alfheim, a montanha Parnes. Ainda tinha esperanças de ser aceito pelo Ar por ir tão longe e tão alto apenas para ter sua aprovação. O caminho era longo, mas ele sempre gostou de caminhar e admirar a paisagem a sua volta, principalmente aquela do caminho até a montanha, pois nunca andara por ali antes.

Era lindo, principalmente a vegetação, sabia que muitos elfos filhos da Terra moravam ali, e cuidavam muito bem de seu território, apesar de também cuidar de toda a floresta, suas casas eram lugares especiais.

Não pôde deixar de observar um lindo e enorme canteiro de flores. Era incrivelmente colorido e belo, sabia que ali havia flores de todos os tipos, apesar de não entender muito sobre elas. Parou para sentir a mistura de cheiros e observá-las mais de perto.

Uma flor em especial chamou sua atenção, ela tinha uma cor rosada que degradava de tom em suas pétalas, tão delicada que parecia ter sido pintada a mão pela mais habilidosa artesã. Ao ver tão bela flor, pensou que a pessoa que a cultivava não sentiria falta se levasse uma consigo, tinha muitas outras, afinal.

Se moveu para tira-la do solo, abaixando-se para chegar mais perto de seu caule, quando sentiu uma mão em seu ombro. Com certeza não era ninguém conhecido, já que estava em uma parte distante da floresta, onde não conhecia ninguém. Não precisava ser um gênio para constatar que se tratava do dono das flores. Suspirou fundo, não esperava ser pego mexendo nas flores de outra pessoa assim, se sentia culpado, apesar de, tecnicamente, não ter feito nada ainda.

Finalmente resolveu olhar para trás, já preparado para dar milhões de desculpas. Se esqueceu de tudo que formulara ao olhar para o elfo que o encarava em pé com as sobrancelhas erguidas.

Nunca poderia imaginar que o dono das flores fosse mais bonito que todas as suas criações naquele jardim.

Ele tinha os cabelos castanhos e lisos, os olhos pequenos e brilhantes e a boca perfeitamente desenhada e rosada. Usava roupas verdes, como a maioria dos filhos da Terra. Era uma presença simplesmente cintilante.

– Se desejar alguma coisa no meu jardim seria melhor falar comigo primeiro, não acha? – ele disse em tom de acusação. Hyunseong não poderia culpá-lo, ele estava prestes a pegar uma flor sem sua permissão.

– Me desculpe, não quis parecer rude, eu só… – respondeu rapidamente e gaguejando um pouco.

– Você só… – fez movimentos circulares com a mão esquerda, indicando que queria que terminasse de falar.

– Só achei suas flores muito bonitas, queria levar uma comigo e achei que não sentiria falta, me desculpe – terminou de falar com a cabeça baixa, ainda com vergonha do que fizera.

– Tudo bem – ele suspirou, relaxando um pouco, pareceu satisfeito com a explicação do outro – Da próxima vez que quiser alguma flor apenas peça primeiro.

– Claro, me desculpe mesmo – disse, se levantando. Viu que era mais alto que o outro elfo, que parecia bem mais fofo e menos assustador desse ângulo.

– Você é mesmo daqui? – indagou curioso – Não consigo sentir a magia em você.

– Sou sim, moro mais ao norte. E a falta de magia, é uma longa história.

– Se importaria de me dizer? Nunca vi um elfo adulto sem magia por aqui e fiquei curioso.

Hyunseong não sabia se devia dizer ou não. O garoto havia pedido tão educadamente e ele era tão lindo, era difícil recusar qualquer pedido assim. Mas por outro lado não queria outra pessoa o julgando.

Olhou nos olhos brilhantes do outro que refletiam a mais pura curiosidade e animação e resolveu que uma pessoa a mais sabendo sobre sua história não faria mal. Contou tudo ao outro, que ao contrário do que pensou não o olhou com pena, mas sim com animação ao lhe dar um conselho.

– Uau, é muito raro que isso aconteça, tenho certeza que o Ar está preparando algo tão especial pra você que você deve se preparar muito para receber – Hyunseong riu disso, achou fascinante a forma como o filho da Terra via as coisas.

– Nunca pensei por esse lado, mas você pode estar certo, obrigado – sorriu e o outro sorriu de volta, um sorriso tão brilhante quanto o dono.

– Não foi nada, obrigado por compartilhar sua história comigo – o filho do Ar ainda estava sem ar fitando o belo sorriso a sua frente. Resolveu ir embora rapidamente antes que ficasse tarde.

– Preciso ir agora, adeus.

Foi embora a passos rápidos sem dar tempo para que o filho da Terra dissesse algo, ele apenas respondeu com um aceno de mão.  Por mais que ele tivesse sido tão simpático, ainda não acreditava que passara vergonha na frente de um elfo tão belo como aquele. Tinha certeza que demoraria mais de uma semana para esquecer aquilo. Ou mais, já que teria que passar pelo jardim do outro todos os dias enquanto estivesse fazendo suas meditações na montanha.

Enquanto subia, tentava esvaziar sua mente, pois precisaria dela livre de qualquer preocupação pelo resto da tarde. Não foi difícil, já estava acostumado a se concentrar todos os dias para aquilo. Era como um ritual, limpar a mente, se sentar ali no solo e se concentrar para sentir o Ar em sua volta.

Ficava ali tentando se conectar com seu elemento, fazendo tudo que Hyosung lhe ensinara. Abria sua mente para que o Ar pudesse lê-la e tentava dividir todos seus sentimentos com ele.

Depois de muito tentar resolveu abrir os olhos e viu que já escurecia. Suspirou, outro dia sem sucesso, mas ainda continuaria indo àquele lugar pelo menos por duas semanas, era sua última esperança. Começava a acreditar que realmente não era capaz de se conectar com seu elemento e que precisaria encontrar outra função que não fosse guiar os ventos pela floresta.

Avistou novamente o jardim mais lindo da floresta enquanto voltava. Se lembrou do lindo elfo e percebeu que ao menos tinha se apresentado ou perguntado o nome dele. Mas teria que passar por ali todos os dias de qualquer jeito, talvez tivesse a sorte de vê-lo novamente.

 

X

 

O sol nascia mais uma vez e Hyunseong seguia para sua rotina diária interminável. Ouviu mais uma vez os conselhos de Hyosung sobre como meditar e sobre como deveria voltar cedo pois era perigoso ficar fora de casa quando não havia luz solar. Já ouvira aquilo milhares de vezes mas sempre escutava com atenção, ele sabia que ela só estava sendo cuidadosa.

Naquele dia, andou mais rápido para chegar ao seu destino, qual não sabia exatamente se era a montanha ou o jardim. Tentou não se animar tanto para rever o elfo filho da Terra, pois o outro poderia nem estar lá, ou estar e ignorá-lo.

Mas em pouco tempo já podia ver o jardim e o elfo ali, tomando conta de suas plantas, logo ficou animado novamente.

Quando chegou perto do canteiro, se sentiu do mesmo jeito que da primeira vez. Hipnotizado pelas cores e estonteado pelos aromas. O elfo dono do lugar estava distraído com seu trabalho e não percebeu Hyunseong se aproximando. Ele já começava a pensar que era melhor deixar o outro trabalhando e seguir seu caminho quando o outro o olhou e exibiu um sorriso radiante.

– Achei que você não viria logo – ele riu ao sair do meio das flores e se aproximar do outro. Hyunseong não sabia se estava imaginando ele dizendo que o esperou ali – Me dei conta que nem perguntei seu nome ontem.

– É Hyunseong – hesitou um pouco, ficava nervoso perto dele.

– Prazer, meu nome é Jeongmin – estendeu a mão para cumprimentá-lo e logo foi correspondido.

– Prazer, também esperava que você estivesse aqui fora quando eu passasse – Jeongmin riu e Hyunseong pôde ver suas bochechas um pouco rosadas.

– Que bom que ambos estamos aqui então. Na verdade queria te dar uma coisa – ele se abaixou no nível das flores. O filho do Ar estava curioso, tentou olhar o que ele estava fazendo ali sem sucesso. Apenas viu que ele segurava uma flor quando se levantou, a mesma que Hyunseong tentou pegar no dia anterior – Você gostou dessa não é? Pode ficar com ela.

Hyunseong ficou chocado, não imaginava que o mais baixo lhe daria uma de suas flores assim. Ele as cultivava com tanto carinho e Hyunseong era só um estranho que passara pela sua casa duas vezes.

– Jeongmin… muito obrigado, ela é linda – disse aproximando a flor de seu nariz para senti-la, depois de seus olhos para observá-la de perto.

– Não é nada – ele riu – As flores sempre me alegram, imaginei que pudessem te alegrar também e te dar sorte na montanha hoje.

– Tenho certeza que vai, obrigado novamente.

Se despediram de forma mais calorosa dessa vez, com um aperto forte de mão. Hyunseong não podia negar que queria dar um abraço no outro elfo, mas claro, não teve coragem. Já se sentia próximo de Jeongmin por mais que tivesse o visto apenas duas vezes. Queria conhecê-lo melhor.

A oportunidade para isso veio no dia seguinte, quando saiu de casa mais cedo a fim de ter mais tempo com o filho da Terra. O elfo lhe convidou para um chá e o outro aceitou prontamente, ainda um pouco nervoso por entrar em sua casa pela primeira vez.

Era um casebre todo decorado por flores do lado de fora, Hyunseong não sabia exatamente como as flores ficavam agarradas a parede, mas o importante no momento era que deixava a casa lindíssima. Por dentro, as paredes não tinham tantos enfeites, mas sim prateleiras e estantes cheias de livros, parecia uma pequena biblioteca.

Jeongmin preparou um chá de camomila para eles, estava delicioso e Hyunseong não pôde deixar de perguntar se a flor usada ali também era cultivada em seu jardim, a resposta foi sim, obviamente.

– Você precisa ir a que horas? – Jeongmin perguntou tomando mais um gole de seu chá.

– Acho que não posso demorar muito – respondeu de cabeça baixa.

– Está desanimado para encontrar o Ar hoje?

– Pra ser sincero nunca estou muito animado – Jeongmin o encarou com os olhos arregalados. Como um elfo não queria se conectar com seu elemento? – É só que – suspirou antes de continuar – Já faz nove anos que tento me conectar e nada funciona, Jeongmin, as vezes acho que nunca vou conseguir.

Era a primeira vez que dizia isso em voz alta. Não queria falar sobre com alguém de sua aldeia, todos ficariam decepcionados. Mas considerando a reação de Jeongmin quando lhe contou sobre sua falta de mágica, deu um voto de confiança e contou, pensara que ele agiria diferente.

E Hyunseong logo percebeu que estava certo. O outro elfo o olhava compreensivo, ao invés de desapontado. Não disse nada por um bom tempo, talvez ponderando o que deveria falar.

– Sabe, eu também demorei a me conectar com a Terra, consegui apenas aos vinte anos.

– Mesmo? Parece que você faz isso há tanto tempo – o outro riu por seu espanto.

– Faz apenas três anos que estou conectado, também achei que nunca fosse conseguir – dizia olhando para sua caneca enquanto circulava seu dedo indicador na borda dela – Quer saber como consegui? – levantou o olhar ao perguntar e Hyunseong meneou a cabeça afirmativamente. Então ele começou a falar de novo – Desde que descobri que era um filho da Terra comecei a estudar muito. A Terra exige sabedoria de seus escolhidos, então passei a me dedicar a isso. Como você pode ver, tem muitos livros aqui, já li todos, e nenhum deles me trouxe a conexão. Eu não entendia o que fazia de errado para ser rejeitado pela Terra assim, até conhecer um velho amigo. Ele já era um filho da Terra há muitos anos, então lhe pedi conselhos sobre como me conectar e ele me respondeu que eu deveria me abrir a Terra e entender o verdadeiro significado de sabedoria.

– E qual era o significado? – estava curioso para o final da história.

– Depois de aprender muitas coisas desse amigo, o pedi a recomendação de algum livro, ele me disse que nunca lera um na vida pois não sabia ler – Hyunseong arregalou aos olhos ao ouvir, nunca conheceu um filho da Terra que não soubesse ler – Fiquei muito chocado quando soube, mas finalmente percebi que sabedoria não é só se afundar em livros, mas também viver, experimentar e aprender com isso. Não demorou muito para conseguir me conectar depois que cheguei a essa conclusão.

– Uau, que incrível – Jeongmin riu do modo exagerado que o mais velho falou – Você acha que esse pode ser meu problema? Que eu não tenha descoberto o que é coragem ainda?

– Pode ser, por isso te contei isso, é importante estar pleno em sua virtude para se conectar.

– Obrigado pelos conselhos Jeongmin, você realmente é sábio, a Terra deve estar orgulhosa – disse sorrindo e viu as bochechas de Jeongmin corarem, o que o fez sorrir ainda mais.

– Não diga coisas assim! – o repreendeu mas acabou rindo também.

Hyunseong não foi até a montanha naquele dia, nem nos seguintes.

Decidiu que já era inútil meditar todos os dias como sempre fizera. Já fazia a mesma coisa por anos e nunca teve resultado. Ao invés disso, passava os dias com Jeongmin, que se comprometeu a ajudá-lo com isso.

As vezes ficavam em sua casa, procurando uma resposta em vários de seus livros e as vezes saiam e Jeongmin o fazia subir em árvores ou atravessar rios para provar sua coragem ao Ar. Nada disso adiantava, mas não se arrependia de ter mudado sua tática, ao contrário dos longos dias de meditação, tentar coisas novas com Jeongmin era muito divertido. Ele estava cada dia mais afeiçoado àqueles olhos brilhantes e sempre que descobria algo novo gostava do filho da Terra ainda mais.

Como quando entrou no lago perto do jardim e o puxou junto. Nesse dia descobriu que Jeongmin não sabia nadar e o outro ficara muito bravo, não por muito tempo, logo Hyunseong o guiava pela água de mãos dadas com ele e os dois se divertiram.

Também descobriu que Jeongmin apesar de amar seus livros, não organizava-os como deveria. Passou uma tarde toda arrumando todas as estantes enquanto Jeongmin reclamava que aquilo atrapalharia seu processo criativo. No final do dia ganhou uma flor pequena e amarela como agradecimento. O mais novo também disse que devia guardá-la para não se esquecer dele quando voltasse pra casa. Mesmo que Hyunseong não precisasse de nada para pensar nele o tempo todo.

Naquela noite de verão, descobrira que Jeongmin amava observar a natureza sob a luz da Lua e era apaixonado pelas estrelas. A maioria dos elfos preferia ficar em casa durante a noite, eram seres estritamente diurnos, então Hyunseong sempre ficou também. Mas naquela noite se viu deitado na grama ao lado de Jeongmin, contemplando a beleza do céu noturno.

– É lindo não é? – Jeongmin perguntou ao fita-lo.

– Sim, ainda não acredito que fiquei todo esse tempo sem perceber tanta beleza.

– Fico feliz que tenha gostado, agora posso ter companhia para observar as estrelas.

Apenas sorriu enquanto olhava para Jeongmin. Sua beleza era mais estonteante que a das estrelas, se sentia o elfo mais sortudo do mundo por poder passar todos os dias com ele.

Estavam muito perto um do outro, Hyunseong conseguia sentir a respiração dele em seus lábios e ver o brilho de seus olhos que tanto amava perfeitamente. Mal percebeu quando a boca dele tocou a sua.

Não conseguiu pensar em nada além de como era bom estar tão perto de Jeongmin quando retribuiu o beijo. Sua mente desligou o raciocínio e se focou nas sensações. Sua barriga que parecia ter borboletas voando dentro dela, seu coração que batia rápido como nunca antes e principalmente seus lábios, que só queriam sentir ainda mais o outro e mergulhar em todos aqueles sentimentos novos e maravilhosos.

Quando se separaram, viu Jeongmin ainda de olhos fechados e com a boca mais rosada que o nomal, por conta do que acabara de acontecer. Sua expressão era serena e Hyunseong pensou que ele estava mais lindo do que nunca, apenas conseguia reproduzir na sua mente três palavras que insistiam em sair pela sua boca, “Eu te amo”. Logo conseguiu sair do transe e percebeu o que fizeram. Ficou assustado.

Aquilo era errado, deveria estar a procura do Ar ao invés de estar ali, se perdendo em tudo que Jeongmin o fazia sentir.

Se levantou e saiu dali o mais rápido que podia, ignorando os chamados do filho da Terra pedindo que voltasse, precisava de um tempo sozinho.

 

X

 

Hyunseong se sentia pesado por tantos sentimentos que se acumulavam dentro de si na última semana. Estava com saudades de Jeongmin, não o via desde o dia em que se beijaram. Também sentia culpa, por ter deixado o filho da Terra sozinho daquele jeito sem nenhuma explicação da sua parte. Mas o que mais pesava era o medo, queria não saber o que estava sentindo e voltar no tempo para nunca conhecer Jeongmin, não estava pronto para sentir tudo aquilo.

Passou dias trancado em sua casa, se comunicando apenas com Hyosung, que insistia em fazer companhia para o elfo mais novo ao menos por pouco tempo durante o dia.

Ele contou tudo que acontecera a irmã, ela não o julgou, afinal, já imaginava que o outro filho do Ar logo se apaixonaria, sempre viu esse desejo nele.

Em uma de suas conversas Hyosung o disse algo que finalmente o faria entender tudo.

– Hyunseong, eu não entendo por que você não tem coragem de se declarar para ele – o outro que estava cabisbaixo de repente a olhou surpreso fazendo com que ela parasse de falar – O que foi?

– Eu não tenho coragem – repetiu.

– Sim, foi isso que eu disse – ficou em silêncio até se dar conta também – É por isso que você não conseguiu se conectar ainda.

– O que eu faço, Hyosung? – apesar de ter descoberto o motivo de não ser aceito pelo seu elemento ainda estava confuso.

– Vá falar com ele! É o que o Ar quer que você faça, seu medo não era ser rejeitado caso amasse Jeongmin? – o elfo confirmou com um gesto – Agora não precisa mais se preocupar com isso, vá!

– Você acha mesmo que eu deva ir? – a mais velha o olhou com as sobrancelhas arqueadas.

– Precisa que eu te leve até lá de mãos dadas? – Hyunseong sabia que ela realmente faria isso se ele não saísse dali naquele momento.

– Não é necessário – se levantou para abraçar a irmã – Obrigado Hyosung, não sei o que faria sem você.

– Provavelmente não muita coisa – riu – Vá logo.

Então ele seguiu para a casa de Jeongmin e esperou que ele o perdoasse pela última vez que se viram.

O jardim estava lindo como sempre, mas o dono dele não estava cuidando das flores como habitualmente fazia. Ele estava sentado ao pé de uma árvore grande um pouco afastada do jardim, apenas olhando para cima, observando as nuvens, provavelmente.

Se aproximou e logo que Jeongmin percebeu sua presença se abaixou para abraçá-lo.

– Jeongmin, me desculpe por ter fugido naquele dia, por favor, eu estava assustado, me desculpe.

– Calma, Hyunseong, você vai me sufocar – disse rindo levemente e logo o filho do Ar soltou-o do abraço murmurando desculpas novamente – Não estou bravo com você, imaginei que fugira por isso, pude ver que estava nervoso, eu também me senti assim para ser sincero.

– Mesmo?

– Claro, quem não estaria? – Hyunseong concordou e os dois ficaram em silêncio. O filho do Ar procurava a coragem dentro de si para dizer o que queria ao outro elfo.

– Jeongmin… eu vim aqui para te dizer algo – hesitou e Jeongmin o olhava esperando que continuasse – Não sei se você sente o mesmo mas preciso dizer que te amo.

Jeongmin não pôde deixar de sorrir ao ouvir aquilo e responder com as mesmas palavras que também o amava, agora arrancando sorrisos dos dois elfos.

De repente sentiram um vento forte em volta da árvore onde estavam, ele fazia um movimento circular e logo o ar estava cheio de pólen. Hyunseong estava confuso, como um vento conseguiria ser tão forte para trazer pólen de tão longe?

– Hyunseong, foi você não foi? – o mais novo perguntou ao outro que não conseguiu responder, não tinha ideia do que acontecia naquele momento – Tente fazer parar – ele fez como Jeongmin pediu, apenas mentalizou o movimento da corrente de ar e em seguida movimentos menos abruptos, sentindo que o vento seguia os movimentos que mentalizava.

– Fui eu – olhava para suas mãos sem acreditar no que acabara de acontecer, finalmente se conectou com o Ar.

Quando olhou para Jeongmin novamente o viu sorrindo e sorriu também. Não demorou muito para que o outro colasse os lábios nos seus, num selo tão doce e apaixonante quanto o último que compartilharam.

– Estou tão orgulhoso, sempre te disse que o Ar tinha algo especial planejado para você, mas os Zéfiros foram realmente uma surpresa.

– Você acha que a Terra e o Ar fizeram nossas habilidades serem adjacentes de propósito?

– Com certeza sim – os dois riram antes de juntarem seus lábios novamente em outro beijo.

Muitos outros beijos ainda viriam depois dos primeiros, fazendo os dois elfos se tornarem complementares assim como os Zéfiros e as flores devem ser.

Love Game – Capítulo II

You are the music in me

Jogava Naruto em meu PSP, aquele jogo era viciante e eu provavelmente não ia parar até zerar todas as partes dele. Na verdade, já tinha zerado e aquela era a segunda vez que percorria o caminho, mas nunca ficava cansativo.

Estava no meio de um jogo de adivinhação de kage bushin quando senti duas mãos em meus ombros. Olhei rapidamente para trás no intuito de descobrir quem era o dono das mãos que ousavam atrapalhar meu jogo sagrado. Fiquei um pouco bravo, mas quando finalmente me virei, já me vi sorrindo como um bobo, era Jeongmin. Não me importava que ele atrapalhasee meu jogo, ou qualquer outra coisa, mas tentei parecer um pouco irritado, pois era assim que eu agiria se fosse qualquer outra pessoa.

– Jeongminnie, você me fez perder o jogo – levantei meu PSP apenas para confirmar que havia mesmo perdido. Me senti envergonhado, aquele era o mini game mais fácil que já existiu. Pelo menos eu tinha uma desculpa.

– Desculpe, hyung, é que eu preciso de um favor – disse enquanto fazia o caminho para se sentar ao meu lado no sofá. Quando chegou sorriu para mim de um jeito que eu já sabia que não ia recusar nada que eu pedisse, assim como ele também sabia. Sempre usava essa tática e nunca falhou, então desliguei meu PSP e direcionei toda a minha atenção para ele.

– Do que você precisa, Jeongminnie? – ele apenas me mostrou um pedaço de papel onde havia escrito uma letra de música e alguns acordes e eu já sabia o que aquilo significava: ele queria que eu gravasse a voz para outro demo de suas músicas – Outra música? – assentiu e eu soltei um suspiro – Você acha que sou um plugin de voz? – disse fingindo estar irritado e ri com sua reação, ele fechou um pouco a cara e ficou sem palavras por alguns segundos, até ouvir minha risada e responder.

– Claro que não, mas sua voz é muito bonita, como não vou querer ela em todas as músicas possíveis? – ele realmente sabia como me convencer. Amava cantar para Jeongmin, era a única coisa que eu conseguia fazer para impressiona-lo. Ele agia como se minha voz fosse a coisa mais linda que ele já ouviu, e apesar de envergonhado, me sentia feliz com isso.

– Tudo bem, vamos ensaiar – ele sorriu para mim, pegou na minha mão e me levou para o carro. Meu coração sempre batia rápido e eu ficava nervoso quando Jeongmin pegava na minha mão. Por alguns segundos podia fantasiar que estavamos indo de mãos dadas para um encontro ou algo assim. Algo bem idiota, eu sei, mas por mais que eu tente manter a compostura e não parecer um completo otário, as vezes não consigo me controlar. Ele provavelmente me acharia um louco se fosse como a Jean Grey e pudesse ler mentes.

Fomos até o carro que pertencia a Donghyun, já que nenhum de nós tinha um e o hyung sempre me deixava treinar em seu carro, dizia que se eu perdesse o gosto por dirigir depois de tirar a carta de motorista nunca mais o recuperaria. E como acabara de tirar a habilitação, devia dirigir muito, segundo ele. Achava um exagero, mas isso me fazia sempre poder usar o carro então, não reclamava muito.

Assim que entramos, Jeongmin plugou seu pen drive no aparelho de som e escolheu uma música. Após ouvir um segundo da música escolhida o olhei e sorrimos, sempre cantávamos aquela música no carro e hoje não seria diferente, logo começamos a cantarolar Love Game, da Lady Gaga. Jeongmin era praticamente um Little Monster e eu aprendi a gostar de algumas músicas depois de tanto ouvi-las, Love game era uma delas. Era impossível não se entregar a melodia e depois vi que a letra era um pouco pornográfica, não me importei muito, afinal, não esperaria menos de uma música que Jeongmin gosta. Ainda cantamos muitas outras músicas – todas do gosto de Jeongmin, não é como se minha opinião valesse – antes de chegarmos ao nosso destino, o estúdio.

Ficamos por muito tempo apenas jogando conversa fora, fofocando sobre os membros, alguns novos trainees que havíamos conhecido, ao inves de realmente ensaiarmos, acabamos passando a música duas vezes. Mas Jeongmin insistiu que estava perfeito e que deveríamos gravar uma vez antes de irmos embora, só com voz e teclado, que ele tocaria. Assim fizemos, enquanto cantava, pensava na letra que estava em minha frente. Era quase impossível acreditar que poemas tão bonitos saiam da cabeça de Jeongmin. Nos conheciamos há anos mas ele sempre tinha um jeito de me surpreender todos os dias. Quando conversavamos, ele era sempre leve, alegre, e ali naquelas músicas me parecia mais profundo, melancolico. Seria bom se ele compartilhasse esse lado comigo um dia, como seu principal confidente. As vezes, enquanto tocava, direcionava seus olhos diretos nos meus e sorria, como se para dizer que eu estava indo bem. Do jeito que ele me olhava quando tocavamos juntos, quase poderia acreditar que ele gostasse de mim, que correspondesse meus sentimentos. Era intenso, como uma ligação forte e única, algo maior que a parte consciente de nossa mente. Mas sempre que a música acabava, toda a magia no ar ia junto com ela.

– Foi perfeito, hyung – ele se levantou, andou até mim e estendeu sua mão para um high five, terminei o casual cumprimento.

– Como pode ter sido perfeito? Ficamos falando besteiras ao invés de ensaiarmos – ri lembrando de todo o trabalho que tivemos para chegar ali se podíamos simplesmente ficar conversando em casa.

– Só basta você cantar para ser perfeito – ele sorriu e saiu da sala de gravação para arrumar suas coisas. Já estava tarde e precisávamos ir embora.

Eu, por outro lado, não dei um passo sequer, quando ele dizia coisas como aquela para mim, ficava paralisado por algum tempo. Parecia que falava e sorria daquele jeito de propósito, apenas para que eu me apaixonasse cada dia mais. Para que me perdesse totalmente naquela estrada que já parecia sem saída. Sabia que para ele era normal elogiar seus amigos, mas ainda significava o mundo para mim. Cada ciclo de sua respiração já representava isso, ele era meu mundo.